CRÍTICA | Em ‘O Estrangeiro’, Jackie Chan entrega sua melhor interpretação da carreira

NOTA: (4 / 5)

Consagrado pelos seus filmes de ação e de artes marciais, Jackie Chan finalmente ganha a chance de mostrar sua versatilidade. Em O Estrangeiro (The Foreigner), Chan interpreta Quan, um pai viúvo que comanda um restaurante chinês em Londres, e que vai buscar vingança pelo assassinato da filha em um atentado terrorista. A melhor interpretação da carreira do ator é contida, porém, por um roteiro politicamente enviesado, e um Pierce Brosnan imbatível no papel de um político “duas caras”.

Tal qual ‘Massacre no Bairro Chinês’ – um dos raríssimos filmes com Jackie Chan em que ele não faz o tipo “nice guy” engraçado e simpático -, ‘O Estrangeiro’ dá a oportunidade para que o ator apresente ao público sua capacidade para interpretar papéis dramáticos, o qual faz com excepcionalidade e muito profissionalismo, ainda que pese o contexto da história na qual seu personagem está inserido. Quan é simples até se descobrir que ele é veterano de guerra com grandes habilidades de combate. É misterioso até se descobrir que perdeu duas filhas no Vietnã; e é benevolente até perder sua última filha em um atentado terrorista feito pelo Exército Republicano Irlandês (IRA).

A partir daí, Chan excele sobretudo, em suas expressões e estado de espírito, na angústia de Quan ocasionada pela perda e na ira justificada pelo descaso da polícia local – a quem ele recorreu e não obteve o suporte que considerou merecer. Seu inglês é regular, tenta subornar um policial com dinheiro, e se utiliza de bombas caseiras para chamar a atenção do governo britânico para seu caso. Infelizmente, seus planos para descobrir os nomes exatos dos responsáveis pela morte de sua filha, bem como suas estratégias para se vingar dos culpados, são quase inteiramente independentes da história principal, podendo facilmente ser descartado e deixando que um ótimo Pierce Brosman fique no centro e tome conta de tudo.

Em ‘O Estrangeiro’, Pierce Brosnan interpreta Liam Hennessy. Seu personagem se assemelha a Gerry Adams, ex-presidente do partido político irlandês Sinn Féin.

A bomba reivindicada pelo IRA no filme (descobre-se depois se tratar de um sub-grupo atuando semelhante à “lobos solitários”) inicia a associação entre ficção e realidade, remetendo à proposta final ambiciosa de desintegrar a Irlanda do Norte do Reino Unido e reuni-la novamente com a República da Irlanda. Brosnan faz Liam Hennessy, vice-ministro do Reino Unido e que já foi um dos principais membros do IRA. Ele trai a esposa com uma jovem misteriosa e é suspeito sobre se ainda mantém algum vínculo com a antiga milícia.

Liam também se associa a uma realidade onde há um real Gerry Adams (muito semelhante à Brosnan no filme), que até pouco tempo presidia o partido de esquerda Sinn Féin, histórico braço político do IRA antes da milícia abandonar oficialmente as atividades em 2005. Paralelo à uma trama complexa envolvendo traições, facções e terrorismo, têm-se um chinês “fora da caixa” alheio a tudo isso e que só quer saber de se vingar com as próprias mãos daqueles que mataram sua filha.

Embora todo o marketing do filme esteja envolto de Chan e sua volta ao cinema ocidental, bem como seu papel de drama incomum à sua filmografia de artes marciais, Quan, seu personagem, é de fato apenas aquilo que o título propõe, um “estrangeiro”; estrangeiro naquele país e estrangeiro à trama política irlandesa fictícia, ainda que tão bem performado quanto Brosnan na pele de um familiar Liam Hennessy.

NOTA: (4 / 5)

Título original: The Foreigner
Diretor: Martin Campbell
Ano: 2017
País: Reino Unido, China
Gênero: Ação
Elenco: Jackie Chan, Pierce Brosnan, Orla Brady, Rory Fleck Byrne, Charlie Murphy
DVD Fora de Rumo
DVD Punhos de Serpente
DVD Em Nome da Lei
DVD 1911 A Revolução

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