CRÍTICA | ‘Um Motorista de Táxi’ é um despertar para a conscientização política

NOTA: (4 / 5)

Este ano a Coreia do Sul aposta em um drama histórico para conquistar uma vaga no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira: Um Motorista de Táxi (Taeksi Woonjunsa), que conta mais uma vez com a parceria entre o diretor Hun Jang e o astro coreano Song Kang-Ho (o mesmo de O Expresso do Amanhã e Memórias de um Assassino). Aqui, ele interpreta Man-seop, um pobre motorista de táxi de Seul que descobre aos poucos a realidade ditatorial de seu país. A consciência política do que se pode chamar de um “pobre de direita” é, talvez, o fio condutor principal desse drama coreano, embora sem poder considerar elemento suficiente para um Oscar aos olhos dos americanos.

Muito seguro dentro do personagem, Kang-Ho encanta ao interpretar o alienado Man-seop, que passa o dia fora de casa trabalhando como taxista pelas ruas de Seul. Tem uma filha pequena que sempre se mete em confusão com o filho da proprietária da casa onde Man-seop mora – a quem ele deve uma bagatela de aluguel atrasado. A ausência do pai é sentida pela criança na concomitância da necessidade da sobrevivência na metrópole sul-coreana. Tendo servido ao exército no passado, e vivenciado a experiência de morar na Arábia Saudita, o taxista revela um patriotismo ignorante, na medida em que as atribulações diárias de seu trabalho o incapacitem de conhecer a realidade atual pelo que passa seu país, bem diferente da sua ideia de uma força armada à serviço do cidadão, e mais próximo à sua experiência no Oriente Médio.

Man-seop é o típico “pobre de direita” justificado pelo diretor Jang pela prioridade que o taxista dá ao sustento e educação da própria filha. Prestes aos eventos que posteriormente ficaram conhecidos como o “Massacre de Gwangju”, Man-seop chega a criticar e xingar os manifestantes – a maioria estudantes – ocupando e bloqueando as ruas, com cartazes e gritos por democracia. Eles são, sobretudo, vagabundos atrapalhando quem está ali para trabalhar, como ele.

O ano é 1980, e a Coreia do Sul enfrenta um golpe de Estado, uma lei marcial, e uma ampla opressão por parte do governo. A mídia estatal divulga apenas as mortes dos soldados, diminuindo a gravidade da situação atribuindo a instabilidade nacional aos chamados “comunistas”. A mídia estrangeira, por sua vez, é incapaz de cobrir os acontecimentos e divulgá-los para o resto do mundo. A exceção e a única esperança é o repórter alemão Peter (vivido pelo regular Thomas Kretschmann), que consegue acesso à Gwangju justamente graças à Man-seop.

Um Motorista de Táxi (2017): O filme do diretor Hun Jang se passa em 1980, durante a ditadura militar coreana

O taxista “roubou” Peter como seu cliente depois de ter conhecimento de que o repórter pagaria a mesma quantia de dinheiro que precisava para pagar o aluguel atrasado. Esse “furto” não trouxe consigo, porém, a consciência da crueldade e instabilidade que esperava o taxista em Gwangju. E é esse choque de realidade de Man-seop que conduz a trama sobre o histórico massacre coreano de 1980.

Hun Jang executa aqui uma boa direção ao intercalar no drama boas doses de comédia e entretenimento, a maioria delas encabeçadas pelo protagonista. Man-seop encanta pela humildade, empatia e, obviamente, a sinceridade. Ainda que o típico e conhecido melodrama sul-coreano esteja presente, o recurso de utilizar um personagem com atribuições heróicas e extraordinárias – comum no cinema americano – não corresponde a Man-seop. O taxista demora a compreender e acreditar que o mesmo exército que serviu no passado, agora repreende e mata os cidadãos que clamam por justiça e democracia. Talvez nem seja crível dizer que compreende sobre o que está sendo reivindicado de fato; apenas despertou nele um senso de coletividade há anos adormecido pela prioridade que sempre deu ao dinheiro e à própria filha.

A consciência política veio, pois, a partir do desrespeito aos direitos humanos. Os trâmites políticos do golpe de Estado e as razões que levaram a tal ponto não são discutidos; o que se vê são simples comerciantes, trabalhadores e estudantes se unindo contra a opressão militar. Não há discurso político, embora se esconda a mensagem progressista.

‘Um Motorista de Táxi’ dá assim, continuidade à ótima leva de filmes coreanos a estrearem no Brasil nos últimos três anos. Bem intercalado entre comédia e drama político (o próprio cartaz do filme, ao mostrar o taxista sorrindo, condensa as pesadas cenas que esperam o público nos cinemas), é de se esperar que faça algum barulho no Oscar este ano, embora a grande concorrência de filmes estrangeiros nesta edição coloque o filme de Hun Jang um pouco distante do prêmio.

NOTA: (4 / 5)

Título original: Taeksi Woonjunsa / A Taxi Driver
Diretor: Hun Jang
Ano: 2017
País: Coreia do Sul
Gênero: Drama
Elenco: Song Kang-Ho, Thomas Kretschmann, Hae-jin Yoo, Jun-yeol Ryu
DVD Invasão Zumbi

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