CRÍTICA | A Noiva: Terror russo é quase grotescamente bizarro

foto a noiva filme russia

 NOTA: (2,5 / 5)

Alguns filmes contemporâneos russos parecem ter a ousada premissa da similaridade com o cinema ocidental, sem deixar-se confundir como mero plágio. Vê-se a procura por autenticidade em trabalhos fortemente inspirados pelos filmes ingleses e americanos, o que é algo respeitável se se considerar que (quase) nada hoje se cria, mas se copia. Este é o caso do terror A Noiva (Nevesta), que foi exibido no final deste ano no Brasil com um terrível detalhe: a versão legendada em português apresentou no áudio uma dublagem em inglês – péssima, por sinal. Eis o primeiro argumento que justifica uma tentativa de se aproximar de recursos ocidentais que deram certo, como os que se veem em A Mulher de Preto e A Chave Mestra. O “tempero russo” supostamente fica a cargo da fantasia exagerada, ainda que recaia menos em algo propriamente autêntico do que em uma ode inesperada aos contos alemães dos irmãos Grimm.

‘A Noiva’ conta a história de Nastya (Victoria Agalakova), que vai passar um tempo na casa da família de seu noivo Ivan (Vyacheslav Chepurchenko). Lá vivem a irmã dele, Lisa, e os dois filhos dela, além de mais alguns membros daquela que revela ser uma tradicional e histórica família eslava, que no século XIX, costumava tirar fotos dos mortos com as pálpebras pintadas, acreditando que com isso poderiam enganar a morte. As fotos tiradas, por sua vez, salvaguardariam a alma das pessoas mortas, que só poderiam voltar a viver através de um ritual no qual uma outra pessoa (viva) é usada como cobaia para receber a alma do falecido. O filme acompanha Nastya descobrindo os segredos daquela família e a relação dela com outra “antiga” noiva que foi preservada em uma dessas fotos, e que agora também deseja voltar à vida.

A dublagem ruim e – de proposta incoerente – em inglês é apenas um dos pontos negativos de ‘A Noiva’, ainda que o filme se sobressaia em alguns outros aspectos. É o caso, por exemplo, da fotografia e do figurino, remetendo ao século XIX através de bons elementos góticos muito parecidos com os vistos no britânico de 2012 A Mulher de Preto, do diretor James Watkins. Este é outro filme de terror mediano, tal qual ‘A Noiva’, que se valeu bastante de outra produção do mesmo gênero: Os Outros, lançado em 2001 e estrelado por Nicole Kidman; este sim um dos pouquíssimos filmes de terror gótico que deram certo. São as cenas da “noiva cadáver” que lembram mais o filme de Watkins do que este com a Nicole Kidman.

A trilha sonora também se destaca em alguns momentos nessa produção russa, como a improvável música romântica que toca em determinada momento entre o casal de noivos. Uma “quebra do protocolo” dentro do gênero do horror que já foi bastante comum nos filmes de terror americanos da década de 1990, como na trilogia Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado e no suspense Tentação Fatal.

foto a noiva filme russia
A Noiva (2017): O terror russo do diretor Svyatoslav Podgayevskiy busca referências em filmes ocidentais, como Os Outros e A Chave Mestra.

É necessário ainda destacar algumas poucas cenas que chamam a atenção por uma boa produção de modo geral. O epílogo introduzindo o contexto do filme merece reconhecimento, considerando que a prática antiga eslava de fotografar os mortos e pintar suas pálpebras foi de fato, real. Surpreende, portanto, a ótima premissa inicial, diante de um público brasileiro não familiarizado com o cinema da Rússia. ‘A Noiva’ começa muito bem e já excedendo as primeiras expectativas, com seu estilo de conto de terror fantástico de época, como uma versão macabra de algum conto dos irmãos Grimm.

A cena dentro do caixão também é um caso à parte, contando com uma rápida dose de suspense e uma boa captação da câmera dentro de um minúsculo espaço semiescuro. O filme até poderia funcionar se tivesse ficado no tempo inicial da história, pois é na parte passada nos dias atuais que ele facilmente tropeça, por uma série de pequenos erros grotescos que estragam o que poderia ter sido uma boa alternativa para o terror americano.

Outra comparação que pode ser feita remete à ideia de tomar um corpo para trazer de volta a alma de alguém que já morreu. Essa é a principal premissa do terror de 2005 A Chave Mestra, que  também é mediano mas que, assim como A Mulher de Preto, soube dosar os recursos do gênero para equilibrar o horror dentro de um roteiro também não muito espalhafatoso. A ideia de um corpo empossado por si só já é surreal, e é preciso de muita dosagem para que o filme não saia do terror e transcenda para o grotescamente bizarro. ‘A Noiva’ talvez esteja bem próximo disso, mas poucos bons elementos o livram de tal categorização.

No geral o filme tropeça na montagem das cenas, atrapalhando a continuidade da história. Os muitos furos no roteiro comprometem a credibilidade no resultado final, e o desempenho ruim de todo o elenco leva ‘A Noiva’ para um nível bem próximo ao do amadorismo. Ainda assim, é um filme que se permite perder algumas horas para vê-lo, embora a tal originalidade tenha se perdido em algum solapo descompasso. Talvez a autenticidade russa esteja, pois, em procurar desesperadamente não se igualar ao cinema americano, seja lá de que maneira isso possa ser feito.

NOTA: (2,5 / 5)

Título original: Nevesta / Hebecta / The Bride
Diretor: Svyatoslav Podgayevskiy
Ano: 2017
País: Rússia
Gênero: Terror
Elenco:  Victoria Agalakova, Vyacheslav Chepurchenko, Aleksandra Rebenok

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