O que há em comum em Eu Não Sou Madame Bovary (2016) e A História de Qiu Ju (1992)?

ATENÇÃO! Contém Spoilers.

A História de Qiu Ju (Qiu Ju da guan si) é um interessante filme de 1992 do cineasta Zhang Yimou e estrelado pela atriz Gong Li. Ela interpreta Qiu Ju, uma camponesa grávida que, incansavelmente, vai e volta à cidade para buscar justiça para seu marido, que foi agredido na virilha pelo líder do vilarejo onde moram. Sua jornada se assemelha ao recente Eu Não Sou Madame Bovary, do diretor Feng Xiaogang e estrelado por Fan Bingbing (leia a crítica). Aqui acompanhamos a camponesa Li Xuelian buscando reaver um falso divórcio que tramou com o marido, a fim de conseguir uma segunda propriedade junto ao governo. De acordo com a lei, os casais só podem ter uma casa no nome de ambos. Ela descobriu que foi enganada e que seu divórcio falso na verdade foi real. Assim, ela parte em busca da anulação da separação, enquanto é acusada de ser uma “Madame Bovary”  – ou “Pan Jinlian” na literatura chinesa.

Curta a página do Facebook e acompanhe as atualizações do Blog!

Devido a essa instantânea similaridade quanto à busca das duas por justiça, vamos compreender o que pode ser uma outra semelhança entre os dois filmes: a dignidade humana. Isso sob o olhar desses dois diretores que muito têm a dizer sobre a sociedade chinesa e a relação do cinema com o governo comunista.

Semelhanças iniciais: O difícil diálogo com o governo

A atriz Gong Li estrela o filme A História de Qiu Ju, do diretor Zhang Yimou. Ela interpreta uma camponesa grávida que vai buscar justiça pelo marido agredido.

Ambos os filmes, como explicitado, tratam de uma camponesa pobre que se considera injustiçada, e que luta no governo em busca de alguma compensação: Qiu Ju, pelo o que aconteceu com o marido, e Li Xuelian pelo falso divórcio tramado com o esposo. Os dois filmes também foram baseados na literatura, sendo o de Yimou uma adaptação de “The Wan Family’s Lawsuit”, do autor Chen Yuanbin. Ambos também foram censurados (o filme de Yimou foi exibido na China 16 anos após o seu lançamento, e o do diretor Feng foi adiado por alguns semanas para ser vistoriado), e ambos lidam com o governo e sua relação complicada com a comunidade rural chinesa.

As personagens principais também se assemelham na questão da personalidade: as duas mantém-se firmes perante a preponderância masculina na política e viajam constantemente à cidade até conseguirem obter justiça naquilo que reivindicam. Ambas se inconformam com as decisões judiciais em cada instância em que o caso é submetido, apelando-o até onde o sistema local permite levar a questão. Na história de “Bovary”, o caso do falso divórcio chega até Pequim, no âmbito da anual Assembleia Popular. Em “Qiu Ju”, o caso do espancamento não chega a ir muito longe, mas passa por algumas instâncias o suficiente para efeitos de comparação.

As semelhanças também recaem nos diretores Zhang Yimou e Feng Xiaogang: os dois são uns dos principais cineastas da chamada Quinta Geração do cinema chinês, marcada por produções que refletiram importantes acontecimentos no país, como a Revolução Cultural do então presidente Mao Tsé-Tung, em 1966. Neste específico filme de Yimou, a Revolução não é o contexto central, embora um detalhe na produção revele as circunstâncias difíceis já nos anos 1990: no governo de Deng Xiaoping, Yimou utilizou uma câmera escondida para gravar as cenas passadas nas ruas, podendo ver nelas uma China em transição face à abertura de mercado conduzida por aquele presidente.

O elemento da dignidade

A atriz Fan Bingbing estrela o filme Eu Não Sou Madame Bovary, do diretor Feng Xiaogang. Ela interpreta uma camponesa que foi enganada pelo marido com um falso divórcio.

Mas a forma como esses diretores dialogam ficcionalmente com o governo, limitado em seu sistema burocrático, se diferenciam na medida em que esse diálogo é priorizado ou rebaixado para segundo plano, embora permaneça uma mesma essência. Em “Bovary”, o que era de se supor ser uma fábula sobre se a personagem é ou não de fato uma “Pan Jinlian”, é na verdade uma crítica sobre como pode ser complicado uma pessoa da zona rural buscar auxílio legal junto às autoridades centrais, seja dentro da própria província ou mesmo na capital.

Entretanto, o curioso é que todos os funcionários públicos, embora egoístas e temerosos em perder seus cargos, ajudam de bom grado à camponesa Li em averiguar seu caso do falso divórcio. Todos consideram suas convicções no mínimo mirabolantes e impossíveis de serem resolvidos à luz do direito, mas tentam coagi-la da forma mais delicada possível. Isso leva a questão principal: A justiça poderia ou não anular um divórcio real, ainda que concordado erroneamente e com intenções burladoras por trás? O fato é que vemos aqui o mesmo que podemos ver  no filme “Qiu Ju”: as autoridades do governo sempre benevolentes para com seu povo, mas sem nenhum sinal convincente de compaixão e consciência de equidade social.

Em “Qiu Ju”, a camponesa chega a processar em uma instância maior o oficial que deduziu seu caso como perdido. Este é o mesmo oficial que caridosamente a recebeu em sua casa e a alimentou. Mas ao contrário do que se esperaria, a postura do homem ao ter conhecimento de que ela o processaria foi de completa calma e apaziguamento, corroborando com o mesmo comportamento “oficial” visto durante o filme inteiro de “Bovary”. Não há que se reclamar de desrespeito aos processos legais, enfim. Talvez o que não falta seja a assistência social, a discriminação contra quem não tem recurso nenhum para oferecer; mas a flexibilidade em detrimento de uma sistematização padronizada, para compreender que assim como nem tudo precisa ser resolvido diante de um juíz, existem coisas que podem ser resolvidas com a simples e sincera compaixão humana.

Está na hora de aprender a falar chinês

Li Xuelian, a camponesa de “Bovary”, revela ao final do filme que o grande motivo de sua insistência perante a lei chinesa foi o filho que perdeu em um aborto, ocasionado de um stress pelo marido. No fundo, ela não queria a punição do esposo enganador, mas a oportunidade de se casar novamente com ele, e se separar de novo de forma legítima, para recuperar a própria  dignidade.

Seus planos impensados para matar o marido são senão uma tática do diretor, protegida pela desculpa da raiva da personagem, para dialogar com a história literária de “Pan Jinlian” e manter o suspense sobre se Li é mesmo a mulher adúltera que seu marido afirma que é.

Voltando no filme “Qiu Ju”, em meio a toda a história, acompanhamos a relação próxima entre os moradores do vilarejo, inclusive com a própria Qiu Ju frequentando a casa do agressor do marido e sentando em sua cama com um grau considerável de intimidade. Em outra cena, no dia seguinte ao parto da camponesa, o agressor segura seu bebê, enquanto Qiu Ju o convida para uma festa em sua casa. Dada a forma com que se relacionam naquele simples vilarejo, Qiu Ju chega a receber algumas críticas por levar o caso do espancamento para além daquelas montanhas, quando talvez poderia ter sido resolvido ali mesmo.

Ela só iria conseguir alguma compensação quando um exame de Raio-X denunciasse que seu marido tivera uma lesão realmente danosa na região genital. Seu agressor passaria, pois, a cumprir três semanas de detenção, e é aqui que se revelaria o principal fator subjetivo nos dois filmes: Qiu Ju não queria este tipo de justiça, mas apenas um pedido formal e sincero de desculpas por parte do agressor. Recompensas em dinheiro já haviam sido pagas, o marido relevou a agressão e até deu razão para tal ato do agressor, mas a camponesa quis viajar grávida até a longínqua cidade para tentar exigir um sincero retratamento verbal, de alguém que no fundo considerava como um amigo querido da família.

Conclusão

Gong Li em A História de Qiu Ju, do diretor Zhang Yimou. O cineasta, juntamente com Feng Xiaogang, são importantes diretores que marcaram a Quinta Geração do cinema chinês.

Temos, portanto, por trás de uma incessante busca por justiça legal, uma outra incessante busca que perpassa as relações sociais: a dignidade humana. Li Xuelian queria apenas honrar a morte do filho, consertar seu erro e recuperar o respeito depois de ser comparada com uma “Pan Jinlian”. Qiu Ju, por sua vez, não queria indenização por parte do líder da vila que espancou seu marido, mas a consciência do agressor sobre os limites da ínfima relação social em que eles estão submetidos diariamente naquele vilarejo nas montanhas.

Temos ainda, inegavelmente, duas mulheres enfrentando um sistema majoritariamente masculino, seja na burocracia estatal seja na política do dia-dia, burlando o convencional e excedendo as expectativas de uma comunidade conformada. Dois filmes de diferentes épocas, cada qual à sua maneira de refletir na sociedade uma estrutura política regimentada em uma rígida burocracia.

O trabalho de Zhang Yimou e Feng Xiaogang, portanto, continuam interligados mesmo após passada a fase da Quinta Geração, e continuam imprimindo em seus filmes aspectos sociais da comunidade chinesa de forma ímpar. Analisar suas produções é, assim, um exercício sobretudo antropológico, na medida em que a China se transforma e se desdobra em multifacetas na contemporaneidade.

Referências

EBERT, Roger. The Story of Qiu Ju. 1993. RogerEbert.com
IMDB. The Story of Qiu Ju.
RABÊLO, Lucas V. A Vida Após a Vida | Jia Zhang-Ke e o Cinema chinês da sexta geração. 2017. Ásia no Cinema.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário