CRÍTICA | Eu Não Sou Madame Bovary: Um retrato da burocracia da China

NOTA: (4 / 5)

Em meio a tantas super produções chinesas lançadas anualmente, ainda há alguns dramas políticos de baixo orçamento que conseguem fazer sucesso ao redor do mundo, mesmo que sob a graça dos festivais de cinema. É o caso de Eu Não Sou Madame Bovary (I Am Not Madame Bovary), do diretor Feng Xiaogang, premiado em 2016 nos Festivais de Toronto e de San Sebastián. Ainda que Feng seja conhecido por ter feito blockbusters de sucesso, ‘Bovary‘ se limita em contar uma história que, embora simples, debruça-se em um roteiro bem construído que envolve uma prática combatida rigorosamente pelo governo chinês: críticas ao seu sistema político.

Li Xuelian (Fan Bingbing) é uma pobre camponesa que tramou um falso divórcio com o marido para conseguir uma segunda propriedade junto ao governo. De acordo com as leis chinesas, os casais só podem possuir uma propriedade em nome de ambos. Li, uma vez separada, descobre que o divórcio na verdade foi real e que seu marido a enganou para se casar com outra mulher.

Para piorar a situação, seu marido a acusa de ser uma Pan Jinlian: referência a uma mulher da literatura antiga chinesa que tramou com o amante a morte do próprio marido, ficando marcada aos olhos da sociedade como uma mulher ruim, indecente e traiçoeira (A “Madame Bovary” do título do filme é a associação de Pan com a obra de Gustavo Flaubert – a que melhor representa a personagem chinesa no Ocidente). O marido a acusa de tal nome por ela supostamente tê-lo traído com outros homens antes de se casarem. A partir de então, a camponesa inicia uma batalha frente a burocracia chinesa para não apenas limpar sua imagem, mas também para reaver o divórcio, se casar novamente com o homem, e então se divorciar de novo – dessa vez de forma legítima.

A primeira impressão que se tem nos primeiros minutos do filme é a bela fotografia paisagística, limitada por uma tela circular praticamente o tempo inteiro. Esse elemento, o que conjuga ser uma referência às pinturas antigas chinesas, só é interrompido na segunda metade da história, nas cenas passadas em Pequim, na qual a câmera vira um plano vertical quase quadrado. É na capital onde a protagonista vai parar depois de reaver sem sucesso seu caso na própria província onde mora.

A incessante Li (a competente Fan Bingbing foi premiada em Toronto) denuncia aqui, sob a direção ambiciosa de Feng, o lento, corrupto e egoísta sistema burocrático chinês, embora só tenha ido até o nível regional na ampla hierarquia da China. A camponesa passa dez anos de sua vida viajando à Pequim para coagir qualquer funcionário público influente que possa resolver o seu problema, seja se jogando na frente de seus carros ou fazendo protestos individuais pelas ruas.

A influência do governo chinês

A personagem principal do filme Eu Não Sou Madame Bovary lembra a personagem Qiu Ju, do filme de 1992 A História de Qiu Ju, do diretor Zhang Yimou

Ingênua demais para entender o complexo sistema institucional do próprio país, Li lembra a personagem Qiu Ju, interpretada pela atriz Gong Li no filme de 1992 de Zhang Yimou, A História de Qiu Ju. Ambas são pobres camponesas, que embora ingênuas, são orgulhosas e incessantes na busca pela justiça legal na China (leia o artigo no qual comparo os dois filmes). Esse enfrentamento permitiu um mergulho perigoso na estrutura política chinesa, resultando em um atraso no lançamento do filme de Feng no país. O longa passou por uma revisão pelo departamento de censura do governo e sofreu alguns cortes antes de ser exibido para o grande público. Uma prática já bastante comum, mas que permite observar que ainda há alguns diretores chineses que continuam enfrentando o governo em favor da liberdade de expressão.

Está na hora de aprender a falar chinês

Bovary‘ intercala no drama camponês o humor já conhecido do diretor Feng, principalmente nos funcionários públicos que tentam de tudo para coagir a mulher a não ir a Pequim denunciar o caso na Assembleia Popular, que acontece lá todos os anos.

Porém, a relação delicada entre Li e o governo se sobrepõe de tal maneira que a comédia é muitas vezes confundida com o drama: o que é real e o que é cômico? Eis a principal questão deixada em um filme de fábula com cara de protesto, sustentada em uma camponesa que se torna uma ameaça ao governo chinês, na medida em que seu comportamento coloca em xeque não apenas a reputação do país, mas o cargo daqueles que deveriam contê-la antes que ela pudesse atrair a mídia estrangeira.

Sob a perspectiva do governo dentro da ficção, imprescindível salientar o que seria uma “resposta oficial” a cerca do caso fictício de Li, ainda que pese a dúvida se sempre fez ou não parte do roteiro uma abordagem política praticamente propagandista. Esse espaço concedido – ou imposto – para o governo se intrometer na história e fazer “propaganda” de um “socialismo chinês para o século 21”, faz do filme do diretor Feng, portanto, menos um conto moderno sobre Pan Jinlian do que um exemplo de como diretores como ele tentam dialogar com a censura naquele país.

Com pouco aprofundamento na história sobre Li ser vista pela comunidade como a personagem da literatura, o filme excele assim em mascarar, sob o marketing da Bovary de Flaubert, a complexa e difícil hierarquia institucional chinesa, enquanto “dança” uma valsa com aqueles que ele próprio critica.

Curiosidades
  • O filme é baseado no livro I Dit Not Kill My Husband, de Liu Zhenyun, publicado em 2012. Liu também escreveu o roteiro de ‘Bovary’.
  • O filme foi destaque na 3° Mostra de Cinema Chinês em São Paulo, em comemoração ao Dia do Instituto Confúcio.

NOTA: (4 / 5)

Título original: Wo bu shi Pan Jin Lian / I Am Not Madame Bovary
Diretor: Feng Xiaogang
Ano: 2016
País: China
Gênero: Comédia, Drama
Elenco: Fan Bingbing, Guo Tao, Dong Chengpeng, Feng Enhe, Zhang Jiayi

Artigos Relacionados

Deixe um comentário