CRÍTICA | A Vilã (The Villainess): Thriller coreano lembra Nikita e Kill Bill, mas é original

foto filme a vilã the villainess

NOTA: (4,5 / 5)

Ovacionado de pé por cinco minutos no Festival de Cannes 2017, o thriller coreano A Vilã (The Villainess) é um daqueles filmes surpreendentemente magníficos que não tiveram o devido reconhecimento do público e a merecida bilheteria. Sua arrecadação total foi pouco mais de oito milhões de dólares. Entretanto, o filme foi vendido para distribuidoras de mais de cem países, ganhou a crítica especializada, trouxe os holofotes mundiais de volta para a atriz Kim Ok-vin e para o diretor Jung Byung-Gil (a primeira já havia chamado a atenção internacional pelo filme de 2009 Thirst, do diretor Park Chan-wook; e o segundo pela direção elogiada de Confissão de Assassinato, lançado em 2012), e confirmou a qualidade excepcional do cinema coreano, depois dos bem sucedidos Invasão Zumbi, O Lamento e A Criada (os dois últimos ganharam cada qual uma crítica aqui no Blog: O Lamento; A Criada).

A história é centrada em Sook-he (Kim Ok-vin), uma mulher treinada desde a infância para ser uma assassina profissional, e que vai buscar na vida adulta a vingança pela morte do pai e do marido, sendo este o mesmo que cuidou dela e a treinou com habilidades mortais. A Vilã desponta como uma das grandes surpresas de 2017 por ter como estilo principal a ação violenta e muito banho de sangue, sendo já considerado uma versão oriental (porém única) de Nikita, de Luc Besson – ou de Kill Bill, de Quentin Tarantino, embora o diretor Jung tenha revelado que foi o filme francês que o influenciou.

A Vilã (2017): O filme de ação do diretor Jung Byung-Gil foi aplaudido de pé por cinco minutos após sua estreia no Festival de Cannes 2017.

As ótimas sequências de ação preenchem boa parte do longa: nos minutos iniciais, vemos alguém entrando em um corredor sombrio e matando a facadas diferentes homens saindo de várias portas, tudo visto em primeira pessoa como em um jogo de video-game (uma cena tão marcante quanto a da Noiva aniquilando os ’88 Loucos’ em Kill Bill). Só descobrimos quem está por trás de tamanha matança quando a quebra de um espelho no meio da briga alterna a câmera para a terceira pessoa (o jogo de câmera será um espetáculo à parte em outros grandes momentos), revelando a face da expressiva Sook-he e dando o tom inicial do que virá a ser mais um grande femme fatale movie. As expressões e a empatia da atriz Kim Ok-vin aqui são tão convincentes quanto as de Uma Thurman em Kill Bill: as duas explorando ao máximo a dor da própria personagem na incessante busca por vingança.

Trata-se de personagens instantaneamente apegados pelo público: sofreram injustamente no passado, poderiam ter um futuro normal como o de todos os outros; são pessoas comuns com sentimentos genuinamente bons, mas que foram corrompidos em algum momento da vida, e desde então se viram presas em circunstâncias que não puderam controlar. São os “bons selvagens”, versões exageradas do homem corrompido de Rosseau, que no caso do filme de Quentin Tarantino, a máscara é quebrada por um instante quando a Noiva revela, sob pressão do personagem Bill, já no final do filme, de que sente prazer em ser uma assassina apesar de tudo. Sook-he, ao contrário, se mostra exausta e a ponto de morrer de agonia depois de uma vida inteira em volta de um ambiente frio, sanguinário e solitário.

A Vilã (2017): As personagens Sook-he (Kim Ok-vin) e a Noiva (Uma Thurman) se assemelham em muitos momentos do filme, embora Nikita tenha influenciado o diretor.

Porém, é certo que a coreana lembra a personagem de Uma Thurman em vários momentos, bem como Nikita no filme de forma geral. Um detalhe importante: embora Kill Bill também tenha sua originalidade, também o é uma “homenagem” aos clássicos cult asiáticos de luta. Se A Vilã foi um ode à Nikita e lembra o longa de Tarantino (vem à memória também Old Boy, de Park Cham-wook), isso não faz de Jung e de Tarantino não mais do que originais na forma com que adaptam e reverenciam filmes anteriores.

A ótima direção de Jung e a comovente interpretação de Ok-vin mantém a qualidade em um patamar elevado do filme, embora deixe a desejar em um roteiro que tenta explorar o velho melodrama romântico coreano. Apenas por isso talvez não se deva atribuir a nota máxima à A Vilã: a mudança por vezes drástica dos personagens Sook-he e Jung Hyun-soo (Sung Joon), de profissionais lidando com o crime para um ingênuo casal de novela coreana, parece denunciar a pretensão de Jung em ir de um extremo hardcore a outro extremo totalmente inocente e açucarado, como se quisesse arrebatar a parcela feminina do público e compensar o que pareceu ser uma difícil decisão em fazer um filme de ação na Coreia do Sul protagonizado por uma mulher (o diretor chegou a falar sobre tal dificuldade em algumas entrevistas concedidas).

Trata-se de dois gêneros muito sólidos na Coreia do Sul, cada qual com sua linguagem e recursos. O melodrama coreano é essencialmente exagerado e expressivo, e funciona na medida em que se limita em seu próprio argumento. Ao servir de contraponto para um gênero de ação fortemente influenciado pelo horror, pesa no resultado final a justaposição de estilos tão diferentes e ao mesmo tempo tão autossuficientes.

Certamente o filme será lembrado, contudo, pelas cenas de ação – como a das motocicletas e a do ônibus em movimento –, e não pelo roteiro esquecível. Tendo arrecadado bem menos do que merecia, A Vilã se destaca como uma das melhores versões modernas asiáticas do estilo “vingança feminina”, levando consigo Kim Ok-vin para os holofotes mundiais pelo menos graças aos Festivais internacionais de cinema.

NOTA: (4,5 / 5)

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Título original: Ak-Nyeo / The Villainess
Diretor: Jung Byung-Gil
Ano: 2017
País: Coreia do Sul
Gênero: Ação
Elenco: Kim Ok-vin, Shin Ha-kyun, Sung Joon

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