CRÍTICA | Carrinho de Trilhos (2009)

foto filme carrinho de trilhos rail truck torocco

NOTA: 3.0 Stars (3,0 / 5)

Grande parte do cinema japonês, dos clássicos aos contemporâneos, tem a forte característica da simplicidade, semelhante – porém única – ao do cinema coreano. Em Carrinho de Trilhos (Torocco), classicismo e contemporaneidade se fundem para adaptar o conto de 1922 do escritor Ryunosuke Akutagawa. Dois irmãos japoneses, Atsushi e Toki (Kento Harada e Kyoichi Omae, respectivamente), viajam para o interior das montanhas ao sul de Taiwan acompanhados da mãe – também japonesa -, Yumiko (Machiko Ono), para levarem as cinzas do falecido pai à casa do avô taiwanês Hong Liu. Atsushi é o irmão mais velho, e guarda consigo uma antiga foto de seu avô, ainda pequeno, ao lado de um carrinho de trilho. Como Liu não se lembra do local onde aquela foto foi tirada, os irmãos começam então uma busca ao trilho visto na fotografia.

Trata-se de uma história simples e sem grandes surpresas, mas que vai sendo marcada pelo caminho por angústias familiares enterradas e mal resolvidas, desde que o filho de Hong Liu partiu para o Japão, e por lá se aventurou como repórter. Ele se casou com Yumiko (que era colunista do mesmo jornal que o marido) e serviu ao exército japonês por dois anos. Liu também foi um taiwanês que lutou ao lado dos japoneses, e a falta de reconhecimento por parte deles é o seu principal conflito interno particular. É neste delicado tema que o filme abrilhanta uma história de reunião familiar, no qual a inocência de duas crianças parece curar as feridas adultas deixadas tanto guerra quanto por desentendimentos oriundos – entre Taiwan e Japão.

foto filme carrinho de trilhos rail truck torocco
Carrinho de Trilhos (2009): Filme adaptado do conto de Ryunosuke Akutagawa aborda drama familiar entre japoneses e taiwaneses.

O cenário do campo, nas montanhas taiwanesas, serve de palco para que o pequeno Atsushi explore o local com o irmão enquanto descobre a si mesmo, em meio a uma própria confusão interna sobre a lealdade do amor de sua mãe, e de suas verdadeiras origens em razão das diferentes nacionalidades de seus pais. “Eu sou taiwanês ou japonês?”, pergunta em dado momento ao avô, no qual ele responde que ele mesmo irá decidir quando crescer. O carrinho de trilhos simboliza assim, o caminho da autodescoberta, ao ligar as fronteiras dos dois países no meio das altas montanhas. Dada a premissa simplista do filme, era de se esperar uma cena como a que os dois garotos são empurrados trilha abaixo por um morador do local, enquanto gritam felizes de braços abertos para o céu. Singelo momento, ainda que sem exceder as expectativas.

A fotografia tem seu mérito mas é facilitada pela bela paisagem taiwanesa, e a trilha sonora completa o caráter intimista do filme, considerando que muitas vezes a própria trilha sonora é deixada de lado nesses gêneros do cinema japonês. Poderia facilmente ser descartada, dada a competência dos atores adultos e do convencimento dos mirins Harada e Omae. ‘Carrinho de Trilhos’ é, portanto, simples, previsível e único. Único ao falar de dramas familiares entre japoneses e taiwaneses, escondidas em altas montanhas e envoltas da cultura local. Um filme sobre família, descobertas e auto reconciliação, abordando com a necessária delicadeza as marcas de um passado político conflituoso naquela parte da Ásia.

NOTA: 3.0 Stars (3,0 / 5)


Título Original: Rail Truck / Torocco
Diretor: Hirofumi Kawaguchi
Ano: 2009
País: Japão; Taiwan
Gênero: Drama
Elenco: Machiko Ono, Kento Harada, Kyoichi Omae e Hong Liu.

Filme exibido no 1° dia da ‘Mostra de Cinema Japonês 2017’, em Brasília, de 04 à 12 de outubro. Mais informações, clique aqui.

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