CRÍTICA | Death Note: Iluminando um Novo Mundo (2016)

NOTA: 4 Stars (4 / 5)

O novo live-action Death Note: Iluminando um Novo Mundo (Light Up to the New World), lançado em 2016 e que está em exibição esse ano em alguns cinemas no Brasil, é o quarto capítulo de uma série de filmes lançados a partir de 2006, com ‘Death Note’ e ‘Death Note: The Last Name’. Em seguida, foi lançado em 2008 um spin-off intitulado ‘L: Change the World’, dirigido por Hideo Nakata. Há ainda uma minissérie de três episódios que serve como uma pré-sequência deste novo filme, chamada ‘Death Note: New Generation’. Todos eles são baseados no famoso manga homônimo criado por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata, e publicados no Japão entre 2003 e 2006.

Em ‘Light Up’, o ano é 2016 e a história se passa dez anos após os acontecimentos dos últimos filmes, no qual o ponto central passa a ser uma sociedade ameaçada pelo ciberterrorismo e a presença de mais cinco ‘cadernos da morte’ no mundo humano. Estes cadernos sobrenaturais concedem ao usuário o poder de matar alguém simplesmente escrevendo o nome da pessoa nele. Nessa nova fase, os personagens centrais são os herdeiros de personagens anteriores, Light Yagami e L. Logo, para se ter uma experiência de imersão clara e completa na história, é inegável a necessidade de assistir os filmes anteriores da série.

Mas na realidade, o maior triunfo de ‘Light Up’ é sua capacidade em mesclar a fantasia de ‘Death Note’ com o gênero ação/policial em um ritmo fresco, inteligível e excitante. Intrínseco a isso, têm-se um roteiro implicitamente atento aos desdobramentos de novas tendências sociais, impulsionadas sobretudo pelo rápido avanço da tecnologia e como ela vem definindo as relações modernas. São os jovens aqui que estão no centro dessa líquida modernidade; e portanto, mais vulneráveis face a imprevisibilidade de um futuro que já se consolida no presente (essa vulnerabilidade, entretanto, não é nem um pouco tema de qualquer relevância neste filme).

O diretor Shinsuke Sato parece ter compreendido esse protagonismo esperto juvenil nestes novos tempos, ao manipular um bando de marmanjos policiais da força de inteligência japonesa em torno de uma trama não mais focada exclusivamente nas motivações psicológicas de um jovem “anti-herói”, que mata criminosos do mundo todo com a ajuda de um livro mágico, mas sim no usufruto de um espaço paralelo à realidade que conhecemos, onde quem decide sobre a vida e a morte é um rapaz com pouco mais de 20 anos.

É instantânea a associação com outros filmes ou séries que se debruçam no mesmo estilo que ‘Light Up’ se propõe a fazer, e que causam o mesmo fascínio no público, como a inteligencia artificial em A.I. (2001), a invasão hacker e terrorista em Mr. Robot (2015), a projeção ficcional do futuro em Black Mirror (2011), ou mesmo a tentação pelo poder de moldar o futuro a partir de um objeto ou máquina, como em Minority Report (2002).

Não necessariamente fonte de referência para o diretor, o modo incisivo e ousado com que o personagem Kira é reverenciado na trama (como um Deus todo-poderoso e inabalável em seu projeto de revolução social em escala global), me faz criar uma associação singular com um recente fenômeno que chamou a atenção internacional.

Death Note conectado com a realidade

Death Note: Iluminando um Novo Mundo (2016): Kira (Tatsuya Fujiwara) é um anti-herói que usa o “caderno da morte” para livrar o mundo do mal e da injustiça.

A brincadeira da ‘Baleia Azul’, na qual pessoas da Rússia e de várias partes do mundo seguiram ordens de um indivíduo específico com o objetivo final de cometer suicídio, é um bom exemplo do que pode ocorrer da união entre as novas gerações e o ciberterrorismo. No filme, a identidade de Kira (o responsável pela morte instantânea de ataque cardíaco de inúmeras pessoas) é o grande mistério, criando-se aí um suspense sobre quem pode estar por trás de toda a matança; exatamente como o mistério que cercou a identidade de quem inventou o jogo suicida Baleia Azul por um determinado tempo.

As motivações psicológicas não foram aprofundadas nesse quarto capítulo da série, mas as motivações do responsável pelo jogo da Baleia Azul se assemelham bastante com a ideia do personagem Kira de “exterminar” o mal do mundo matando os criminosos da sociedade por meio do caderno da morte. O criador do jogo suicida é o russo Philipp Budeikin, um também jovem de 21 anos que, ao ser preso pela polícia, confessou ter planejado o game com o objetivo de “limpar a sociedade” (as informações são do Daily Mail) : “Existem pessoas e existem resíduos biológicos – aqueles que não representam nenhum valor para a sociedade. Que causam ou só vão causar danos à sociedade. Eu estava limpando nossa sociedade dessas pessoas”, afirmou em seu depoimento.

A própria “transnacionalização” do jogo da Baleia Azul (ao atrair jovens de outros países, inclusive do Brasil) entre o público mais novo se assemelha à ideia de ‘Death Note’ em estender o universo do ‘caderno da morte’ para fora do Japão, ao iniciar o próprio filme com um dos cadernos surgindo do céu no meio de uma fria e melancólica, vejam só, Rússia. Salvo as devidas proporções, este novo filme tenta então reforçar um vínculo com a juventude atual, cada vez mais protagonista no mercado consumidor da tecnologia.

O Japão de amanhã

foto death note
Death Note: Iluminando um Novo Mundo (2016): A personagem Ama é um dos “Shinigamis” do filme, que são seres mitológicos incorporados no filme como deuses detentores dos “cadernos da morte”.

Outro ponto importante é a exploração de um imaginário ocidental sobre o Japão. Na história, uma equipe de inteligência da polícia do Japão se desdobra em tentar capturar ‘Kira’ e os cadernos, liderados pelo detetive Mishima (interpretado pelo expressivo e convincente Masahiro Higashide) e por Ryuzaki, (também muito bem vivido pelo ótimo Sosuke Ikematsu). Com isso o diretor abusa da ideia de um Japão deslumbrante e exemplo de ultra modernidade, onde em cada detalhe se percebe a eficiência técnica e visual nipônica: o plano estratégico e de posição do time dos policiais, o cenário em tons de cinza e transparentes (nos moldes do que se pode relacionar com a inteligência artificial) e a fotografia das ruas efervescentes de Tóquio.

Inclusive, as ótimas cenas de caos filmadas no famoso cruzamento de Shibuya, um dos cartões-postais da capital, são um dos pontos mais notáveis que tornam o filme mais maduro do que realmente se pensa ao se tratar de uma adaptação de um desenho, podendo assim dialogar com o público mais velho.

Quem também foi peça-chave nesse sentido de deslumbramento em torno do Japão foram os chamados Shinigamis, demônios da mitologia japonesa que, na história do desenho, são deuses da morte que detêm cada qual a real posse dos já referidos “cadernos da morte”. Os efeitos especiais aqui são muito bem feitos e realistas, com destaque para a graciosa Ama – sua voz robótica e um figurino esbranquiçado típico de um filme do Tom Cruise. Tais qualidades ajudam a alimentar na mente do espectador a ideia pré-concebida de um país asiático mais avançado e fascinante do que o dele próprio.

Este novo filme da série Death Note, embora não traga nenhuma novidade incrível para o cinema, trabalha muito bem os artifícios já existentes, dando uma nova roupagem à história por meio não só de uma fotografia espetacular e de uma direção inteligente, mas também por um roteiro atual à realidade do espectador. O diretor Sato brilha em usufruir do que há de melhor do Japão para reproduzir uma trama fantástica e bem amarrada, deixando assim o desafio de ser superado pela versão americana produzida pela Netflix.

NOTA: 4 Stars (4 / 5)

Título Original: Death Note: Light Up to the New World
Direção: Shinsuke Sato
Ano: 2016
País: Japão
Gênero: Suspense, Policial, Fantasia.
Elenco: Masahiro Higashide, Sosuke Ikematsu, Masaki Suda, Erika Toda.

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