CRÍTICA | Okja: Uma versão com atores de algum anime de Miyazaki

foto filme okja

NOTA: (3,5 / 5)

Okja, o novo filme do aclamado diretor coreano Bong Joon-Ho (de O Hospedeiro, Mother e Expresso do Amanhã), é algo como uma versão com atores de um anime de Hayao Miyazaki: uma história infantil que esconde uma mensagem social. A história se passa em 2007 e fala da amizade de uma pré-adolescente chamada Mija (Seo-Hyun Ahn) com um porco geneticamente modificado, a quem ela chama de Okja. O “super porco” na verdade foi uma nova espécie animal descoberta no Chile pela empresa Mirando, comandada por Lucy Mirando (Tilda Swinton), que a modificou em um laboratório e enviou para países distintos no mundo junto com outros 25 porcos. A ideia era que cada fazenda recebesse o animal e o apresentasse à sua própria cultura local, permanecendo lá por 10 anos. Após esse período, os animais voltariam para a sede da empresa para um concurso que iria eleger o melhor super porco.

A aventura do filme começa então a partir daí, com a garota abandonando sua casa, no alto de uma bela montanha paradisíaca, e partindo em busca de Okja para salvá-lo do abatimento. Não é nem um pouco comum nos filmes ocidentais uma menina dessa idade com coragem suficiente para pular em cima de um caminhão em movimento (do alto de uma ponte no meio do trânsito), ou correr atrás dele tão rápido e preciso pelas ruas da cidade. Arrisco dizer que isso a gente deixa para as crianças asiáticas. Mija imprime aqui praticamente todas as personagens dos animes do Studio Ghibli: uma simples garota no início da adolescência que equilibra uma vida correta com algum fardo que precisa carregar, como uma missão imposta pelo destino, o sentimento de vazio causado pela ausência de alguém, ou mesmo a necessidade de crescer e amadurecer.

Mija foi criada pelo avô isolada em uma montanha. É, portanto, uma menina órfã moradora do campo, e parece não ter qualquer interesse pela efervescência da cidade. Salva as devidas proporções, Mija lembra Chihiro, de A Viagem de Chihiro (2001), uma menina mimada que se aventura em um parque mágico para salvar os pais, que foram transformados em porcos. Sua experiência a transforma numa garota solidária e responsável. Na ótima interpretação da atriz mirim Seo-Huyn Ahn, Mija já é responsável, tão humilde quanto a simples casa onde mora. Suas experiências na cidade para salvar Okja transformam não a ela, mas o grupo que luta contra o mal trato de animais que passa a ajudá-la.

Na cena do caminhão em movimento, eles jogam pela traseira do veículo bolinhas nos policiais para que eles escorreguem e parem de persegui-los: algo infantil demais para não ter sido incluído ali propositalmente. A razão disso é a própria Mija, pois é tudo sobre ela e seu pequeno universo, alterado pelo capitalismo das grandes corporações. Tudo que ela queria era voltar para as montanhas com seu bicho e não ser incomodada mais. O filme também é sobre isolamento social, e como o sistema do dinheiro sempre acaba arrumado uma forma de nos tirar do sossego.

foto anime a viagem de chihiro okja
Okja (2017): A protagonista do novo filme do coreano Bong Joong-Ho lembra ‘A Viagem de Chihiro’, animação de 2001 do diretor Hayao Miyazaki.

A influência de Myiazaki e seu estúdio também se vê nas cenas em que a menina brinca com seu porco, no início do filme. Não há diálogos, tudo que se ouve são os sons da natureza, terminando com Okja fazendo um grande barulho ao pular no rio do alto de uma cachoeira. Os movimentos do porco são singelos e conseguem convencer seu comportamento dócil. A fotografia cobre todo o espaço visível, explorando cada detalhe da paradisíaca montanha em que Mija vive (A produção é da Netflix, mas os filmes de Bong Joon-Ho foram feitos para a tela do cinema). A natureza e longos planos sem diálogos, sob a interação puramente contemplativa entre animal e criança, são características marcantes nos animes do Studio Ghibli, como em ‘Meu Amigo Totoro’ (1988), ‘Princesa Mononoke’ (1997) e ‘Ponyo’ (2008).

Os vilões também parecem sair de um desenho: Tilda Swinton, caricata como foi em ‘Expresso do Amanhã’, interpreta uma poderosa CEO com sede de lucro. Ansiosa, tenta a todo custo emplacar uma boa imagem da empresa e assim superar a irmã, vivida pela mesma atriz e que parece ser a mais racional das duas (em favor puramente dos negócios). Jake Gyllenhaal assume o papel de um afetado apresentador de TV, mas sua importância no filme não é nada mais do que justamente mostrar esse caricaturismo dos vilões. É na segunda parte do filme que o clima fica mais pesado e o diretor critica o mal trato dos animais e a forma como são abatidos pelas indústrias alimentícias. O tom curvou-se para o lado da ficção científica, sem ultrapassar o limite do que parece ser, como dito anteriormente, uma versão live-action de um anime japonês. O tema é sério porém trabalhado sem grandes surpresas, talvez a medida certa para o público infanto-juvenil.

Bong Joon-Ho teve, enfim, a liberdade que queria ao fazer esse filme com a Netflix, embora sem poder exibi-lo nas salas de cinema: no Festival de Cannes, causou polêmica pela empresa de streaming não lançar a produção nos cinemas franceses, requisito defendido pelo então presidente do júri, Pedro Almodóvar, para todos os filmes que estavam concorrendo na categoria principal do Festival. (Aliás, uma lista com os filmes orientais que estiveram em Cannes pode ser vista aqui). ‘Okja’ acabou não sendo premiado em Cannes – e eu não acho que deveria, mas tem seu mérito pela forma equilibrada em que tratou de um assunto sério dentro de um universo de fantasia miyazakiano.

NOTA: (3,5 / 5)

Diretor: Bong Joon-Ho
Ano: 2017
País: Coreia do Sul, EUA
Gênero: Aventura, Ficção
Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Jake Gyllenhaal, Paul Dano

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