CRÍTICA | A Mulher que se Foi: Olhar cinzento sobre a marginalização

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NOTA: 3.5 Stars (3,5 / 5)

O filipino A Mulher que se Foi (Ang Babaeng Humayo), premiado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza 2016, é um daqueles filmes cultuados mais pelo conjunto da obra do que pela qualidade do roteiro e direção. O diretor é Lav Diaz, conhecido por fazer filmes a preto-e-branco e com longa duração. Este último, com 228 minutos, é considerado um “curta” perto de outra produção sua, ‘Canção para um Doloroso Mistério’, lançado em 2016 e que dura pouco mais de 8 horas. O tempo é fundamental na criação de Diaz, pois é por meio dele que seu realismo cinematográfico pode ser fielmente trabalhado. O tempo, logo, não se submete ao cinema; é o cinema que se coloca à serviço de Diaz. Tempo e Cinema. O dinheiro não preocupa o universo criativo do diretor filipino, que passa longe do estilo comercial.

Ora, se o próprio cinema se submete ao tempo do diretor, então eu diria que o papel primordial dos poucos espectadores que se propõem em passar boas horas sentados em uma poltrona para conhecer o cinema de Lav Diaz, é responder uma indagação óbvia: a qualidade justifica estilo e forma pouco familiares?

Se depender da história, sim. A protagonista, Horacia Somorostro (interpretada brilhantemente pela atriz Charo Santos-Concio), havia passado 30 anos presa por um crime que não cometeu. Só foi solta por que uma amiga confessou o crime, e que foi chantageada pelo corrupto Rodrigo Trinidad, ex-namorado de Horacia. Livre da cadeia, ela agora se depara com as Filipinas de 1997, bem diferente do que ela estava acostumada. Hong Kong foi devolvida à China pelo Reino Unido, e a violência e o sequestro se alarmaram pelas ruas filipinas. A mulher descobre então que o marido faleceu e que o filho está desaparecido, e a partir daí, parte para Manila para descobrir o paradeiro do rapaz e se vingar do ex-namorado.

A busca por vingança e respostas conduz a história do filme, mas são os relacionamentos sociais de Horacia que preenchem o roteiro. Ao longo do caminho, ela vai se apegando a alguns marginais da região: a mendiga Mameng, o vendedor ambulante de apelido ‘Corcunda’, e a travesti Holanda – esta última é a que terá mais importância na história. Horacia planeja sua vingança buscando pistas por meio deles, e sem revelar sua verdadeira identidade. Se apresenta como Renata: de dia é uma simples senhora, e a noite, veste roupas masculinas e assume uma postura durona, vagando pela escura madrugada da cidade. Ótimo desempenho da atriz Santos-Concio.

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A Mulher que se Foi (2016): Charo Santos-Concio como Horacia, uma ex-detenta que busca por vingança do ex-namorado e pelo filho desaparecido.

O escuro, inclusive, é característica marcante neste filme, ainda que toda a produção seja a preto e branco. O contraste é forte, chamando a atenção para uma região solitária, prestes ao fim; triste. Senti a vaga necessidade de voltar para tal sensação quando Diaz quebra o clima nas cenas passadas durante o dia, convencionais demais ao não mostrar nada mais do que a rotineira movimentação de uma cidade. O medo trazido pela onda de sequestros e corrupção nas Filipinas, combina melhor com a escuridão da noite. É ali que a alma amargurada de Horacia desperta, é durante a noite que os abismos existenciais dos personagens se sobrepõem às obrigações cotidianas. Na madrugada filipina, eles sentem. Durante o dia, vivem. Durante a noite, sobrevivem.

Horacia encontra uma razão para continuar vivendo no seu desejo de vingança, posto constantemente em um conflito moral consigo mesma. Na cadeia, alfabetizava as colegas detentas, na perfeita representação de uma bondosa mulher que foi parar ali por uma junção de fatores de má sorte e pobreza. Foi enganada por um sujeito poderoso e corrupto. Fora da prisão, questões financeiras não são um problema para ela: chega a doar o próprio lote de terras e ainda é dona de um pequeno restaurante – administrado na maior parte do tempo por uma amiga. É como se tudo estivesse planejado para ninguém sair prejudicado caso seu plano de vingança dê errado. Se havia o sonho de viver e reconstruir a vida, ele morreu durante os 30 anos em que ela injustamente ficou reclusa.

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A Mulher que se Foi (2016): O filme do diretor Lav Diaz explora a marginalização social das Filipinas, sempre a preto-e-branco.

O conflito moral aflora na medida em que conhece de perto a marginalização social, e eis aqui um detalhe interessante. Sua condição de ex-prisioneira (que esconde a notícia de que foi solta), viúva, sozinha e longe dos filhos a coloca, de certa forma, excluída da sociedade, ainda que tenha sua própria renda. É sobretudo nessa relação de marginalização interior e exterior que o filme se debruça, e é ela que transformará, para o bem ou para o mal, o sentido existencial da mulher. Ela vê a solidão, o abandono e a injustiça nos três personagens secundários centrais da história: a mendiga, a travesti e o vendedor. Em um breve momento é dado espaço para o que seria a marginalização do próprio Trinidad, na sua relação duvidosa com a religião, na cena em que dialoga com o padre da igreja local. Há nele, sem dúvida, um sentimento de não-pertencimento à ele mesmo, embora permaneça bem em sua luxuosa casa, em um luxuoso condomínio, praticamente encostado nas barracas levantadas próximas dali, que servem de casa para os favelados da região.

O tempo de Lav Diaz também permite uma tímida crítica social, e traz uma das cenas mais bonitas que já vi no cinema: um grupo de recém-desabrigados (que teve suas casas derrubadas sem piedade), espremidos em uma barraca se protegendo da chuva, sendo consolados por uma bondosa senhora contando-lhes uma história de fantasia.

Avaliar o cinema de Diaz é, portanto, difícil, se considerar que talvez não seja pretensão dele não trazer nenhum ápice dramático, plot twist ou qualquer técnica que reavive a adrenalina no espectador. Não é intenção dele nem mesmo de construir uma história em tempo suficiente para o gosto do grande público. E, como já foi dito, não há cores, senão os diferentes contrastes do preto e do cinza. As mais de 3 horas foram geralmente muito bem exploradas para contar um drama tão marginal quanto Diaz o é para o cinema da massa. Poderia se passar dez horas que estaria tudo bem. A qualidade justifica um estilo cansativo, ainda que tudo transcorra de modo linear e horizontal, sem grandes surpresas. O cinema ‘diazístico’ é, pois, complicado; não pela forma e conteúdo, mas pela vontade de ser livre do próprio Diaz, e essa vontade eu defendo ferozmente.

NOTA: 3.5 Stars (3,5 / 5)

Título original: Ang Babaeng Humayo
Diretor: Lav Diaz
Ano: 2016
País: Filipinas
Gênero: Drama
Elenco: Charo Santos-Concio, John Lloyd Cruz, Michael De Mesa, Nonie Buencamino.

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