A Vida Após a Vida | Jia Zhang-Ke e o Cinema chinês da sexta geração

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O filme de estréia do diretor Zhang Hanyi, A Vida Após a Vida (Zhi fan ye Mao), pode ser considerado como um dos muitos filmes alternativos chineses que ganharam notoriedade menos dentro do seu país de origem do que fora dele. Além de Hanyi ter ganhado um prêmio em Hong Kong destinado aos diretores iniciantes, seu filme também concorreu no Festival de Berlim em 2016, na Alemanha, e chegou a ser exibido no Brasil no mesmo ano no Festival Indie, que aconteceu em São Paulo e em Belo Horizonte. Em 2017, ainda foi exibido em alguns cinemas brasileiros para o grande público.

O filme é dirigido por um estreante na área, mas é produzido pelo já consagrado Jia Zhang-Ke, o que leva a crer que por baixo da simplicidade vista nesta produção, há algo nas entrelinhas passível de uma análise mais contextual. Esta produção revela indícios de que ela segue uma onda cinematográfica importante na China, relevante para todos os que buscam conhecer mais afundo a grande história do cinema chinês.

A seguir, veremos do que se trata a história deste filme, qual a importância de Jia Zhang-Ke nele, e qual a relação desse longa com o cinema independente chinês.

A história de ‘A Vida Após a Vida’

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A Vida Após a Vida (2016): Pôster | Foto por: Zeta Filmes

‘A Vida Após a Vida’ se passa em um vilarejo na província de Shaanxi (a província onde os próprios Hanyi e Jia nasceram), que perde, cada vez mais, moradores devido à rápida transformação industrial na região.

Acompanhamos o personagem Ming Chu e seu filho Leilei em um passeio habitual em uma floresta, até o momento em que o corpo do garoto é invadido pelo espírito de sua falecida mãe. Ela volta à Terra para pedir ao seu marido que realoque uma árvore que ela havia plantado no quintal de sua casa, para uma região fora do alvo dos tratores e das perfuradeiras.

A partir daí, Chu e sua esposa, em posse do corpo do filho, iniciam uma jornada para transferir a árvore que teve um grande valor sentimental para a mulher. Ao longo do caminho, acompanhamos como a industrialização afeta a população daquele longínquo vilarejo, e percebemos como é próxima e forte a relação dos chineses com a natureza e as religiões predominantes naquela parte do país.

É a vida na sua “pós-vida”, que se viu na necessidade de quebrar o ciclo sobrenatural do espírito para salvar algo que está ameaçado pelas mudanças do homem.

O filme fala da opção pela natureza acima de qualquer coisa, sem necessariamente indagar-se sobre razão e religião. É perceptível na superfície a simplicidade de um vilarejo povoado por pessoas satisfeitas com suas próprias crenças, ainda que mal delineadas. Já em seu âmago se esconde uma complexidade infinita de sensações e saudade; coisas que se perdem e são deixadas no caminho para que a emergência do novo tome o antigo lugar. Para isso, o diretor deixa de lado uma trilha sonora e uma grande produção, trazendo para o centro o esforço do realismo cinematográfico, por meio de técnicas que marcaram bastante o chamado cinema da sexta geração: câmeras móveis, estilo próximo de documentário, cenários reais e o uso de atores e atrizes não-profissionais.

O diretor Zhang Hanyi também se utilizou de um conto popular que ouvira quando criança para conduzir tal história – pretexto, claro, para abordar não um misticismo cultural, mas o impacto de grandes transformações nas regiões mais inóspitas da China –: a idéia de que alguns espíritos, quando morrem, podem voltar utilizando-se de possessão espiritual para terminar projetos que ficaram inacabados na Terra.

Interessante notar que não há informações em nenhum site internacional sobre nenhuma data de lançamento oficial deste filme na China continental (apenas em Hong Kong e em alguns outros países). É de se supor, pois, que tal produção pode ter tido a mesma recepção que muitos outros filmes da sexta geração teve por parte do governo comunista: se não foi vetado no país, ao menos foi censurado,  teve exibição limitada nas salas de cinema, ou foi apresentado e comercializado ao público de forma clandestina.

Mas por que ‘A Vida Após a Vida’ poderia ser motivo de banimento e censura por parte do governo chinês? E por qual razão ele poderia ser considerado como um filme da sexta geração? As respostas para tais perguntas podem estar na influência do diretor que assina a produção deste filme, e no estilo underground que esta produção se encaixa.

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A sexta geração de Jia Zhang-Ke

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A Vida Após a Vida (2016): O diretor Jia Zhang-Ke produz o filme de estreia de Zhang Hanyi

Jia é um dos poucos diretores da China que mesmo com a censura e com poucos recursos disponíveis, conseguiu reconhecimento não só nacional como também internacional, a julgar pela temática e o estilo que marcaram seus filmes. Ele é considerado hoje como um dos principais diretores da tal sexta geração do cinema chinês: um período que se iniciou no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, e que abordou na cinematografia os desdobramentos sociais da urbanização e industrialização da China, o submundo social e o protagonismo de indivíduos que geralmente são colocados à margem da sociedade.

Trata-se de um período que contrasta substancialmente com a quinta geração que o antecede, esta iniciada por volta de 1986 e que foi fortemente influenciada tanto pela Revolução Cultural quanto pelos eventos que ocorreram na Praça da Paz Celestial, em 1989. Nesta fase foram os diretores Zhang Yimou (‘A Grande Muralha’, ‘Tempo de Viver’) e Chen Kaige (‘Terra Amarela’) que se destacaram pela abordagem que faziam das mudanças histórico-sociais observadas no país. Essas gerações foram divididas com algum consenso na medida em que se observavam como importantes mudanças político-sociais que ocorriam na China eram projetadas pelas lentes do cinema.

Ao contrário da quarta-geração, que aproveitou do auge do cinema no país (com um público recorde comparecendo anualmente nas salas de teatro), a quinta e a sexta geração viram suas produções serem censuradas, proibidas e limitadas, restando recorrer muitas vezes ao patrocínio estrangeiro e às projeções dadas pelos festivais internacionais.

Entretanto, embora a razão da censura no cinema chinês ter uma relação mais direta com a idéia de que há um conteúdo politicamente sensível aos olhos do governo – que possa interferir negativamente na sua estabilidade e no modo como as instituições públicas são vistas pela população –, o que pode ter levado um filme simplório como ‘A Vida Após a Vida’ a não ter o devido reconhecimento no seu próprio país, foi menos o seu viés político-social do que a ausência nele de um apelo mais comercial.

Isso por que, a julgar da influência de Jia Zhang-Ke na produção deste filme, o conteúdo político se mostra aqui discreto e cauteloso, graças à vasta experiência do diretor em fazer filmes em constante ameaça da censura e da falta de investimento. Jia não costuma adotar uma postura militante para denunciar, por meio da ficção, qualquer aspecto estrutural político do seu país, mas adentra no cotidiano daqueles indivíduos mais improváveis para mostrar como grandes mudanças na China interferem em seus modos de vida, como partícipes involuntários de um mundo que rapidamente se altera.

Dito isso, um filme de baixo orçamento e de um diretor estreante como é ‘A Vida Após a Vida’, não pode ser considerado uma grande ameaça para o establishment do governo chinês, mas também não é aquele que vai impactar positivamente a economia do país. E é aqui que entra o fator do apelo comercial, que também interferiu nos trabalhos da quinta e sexta geração do cinema chinês.

Cinema independente versus Cinema de massa

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A Maldição da Flor Dourada (2006): A superprodução de Zhang Yimou com a atriz Gong Li foi lançada no mesmo ano do filme de autor ‘Em Busca da Vida’, de Jia Zhang-Ke.

A história simples de ‘A Vida Após a Vida’ remete obrigatoriamente às produções independentes da China que por muito tempo, brigaram contra os filmes mais comerciais por um espaço maior nas salas de cinema, e por mais investimentos por parte do governo. Pode-se dizer que o auge dessa disputa se deu com o fim da Revolução Cultural e a abertura da China à economia de mercado, trazida com a ascensão de Deng Xiaoping ao poder.

Depois de meados dos anos 1980, a indústria de filmes no país caíra consideravelmente. O público não comparecia mais às salas de cinema como antes, a produção televisiva aumentara e em geral, os chineses tinham outras opções para se divertirem. Os custos de produção dos filmes se elevaram e se viu necessário fomentar um cinema mais comercial, motivada fortemente pelo próprio Estado.

Essa situação chegou inclusive a colocar Zhang Yimou, expoente da quinta geração, contra Jia Zhang-Ke, da sexta. Aderindo a uma produção voltada para a massa, Yimou lançava em 2006 o bem sucedido A Maldição da Flor Dourada, ao lado da atriz Gong Li, que com a ajuda dele, aliás, foi a primeira chinesa a ser reconhecida internacionalmente. Em protesto, Jia havia lançado no mesmo ano seu filme que foi premiado com um o Leão de Ouro no Festival de Veneza, Em Busca da Vida.

Coincidência ou não, ‘A Vida Após a Vida’, produzido por Jia, e A Grande Muralha, superprodução dirigida por Yimou, foram ambos lançados em 2016, embora o primeiro tenha sido lançado no início do ano direto nos festivais internacionais, e o segundo no final do ano, com lançamento não só fora, mas também dentro do próprio país. Estava nos planos, portanto, de Jia lançar como protesto o filme do estreante Zhang Hanyi (Jia atualmente tem sua própria produtora de cinema) novamente junto com um filme comercial de Zhang Yimou?

Conclusão
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A Vida Após a Vida (2016): O filme se passa em um vilarejo em Shaanxi, a mesma província onde Zhang Hanyi e Jia Zhang-Ke nasceram.

Para o sim ou para o não, o fato é que a busca do cinema de autor na China por um espaço maior dentro do país ainda continua, e ‘A Vida Após a Vida’, com sua história simples e particular, sugere que a sexta geração (há quem diga que já exista uma sétima geração) ainda passe pelas mesmas dificuldades que outrora passara. Filmes como este continuam dependendo da graça dos festivais internacionais, enquanto o cinema de massa é abraçado pelo governo chinês. Enquanto este preza por um entretenimento à serviço do grande público, o outro prioriza justamente as conseqüências sociais da atividade político-social do governo.

‘A Vida Após a Vida’, portanto, não é um filme qualquer com uma abordagem simplesmente folclórica, mas é uma produção que segue uma tendência histórica observada no cinema chinês e que tem na sua produção, um dos diretores mais consagrados e expoentes da sociedade contemporânea chinesa. A sexta geração – ou mesmo a sétima – permanece então ativa no esforço artístico de liberdade de expressão e reconhecimento, principalmente pelo seu próprio público.

Curiosidade

  • Jia Zhang-ke é o diretor do filme As Montanhas se Separam, produção de 2015 e que está presente na lista dos 7 Filmes Asiáticos sobre Mães para se emocionar no Dia das Mães. Confira a lista aqui.

Título original: Zhi fan ye mao
Diretor: Zhang Hanyi
Produtor: Jia Zhang-ke
Ano: 2016
País: China
Gênero: Drama
Elenco: Zhang Li, Zhang Mingjun

Referências Bibliográficas

* A formatação não segue o padrão da ABNT
Batista, Mascarello; Mauro e Fernando. Cinema Mundial Contemporâneo – Livro (2008)
China Underground. Life After Life – Perfil (2016)
Ferrari, Márcio. Os olhos da China – Artigo (2015)
Hamburguer, Esther. Censura chinesa relaxa e fomenta “cinema de autor” – Artigo (2009)

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