CRÍTICA | O Lamento: O ator principal salva este filme morno e lento

3.5 Stars (3,5 / 5)

O cinema coreano ganhou a atenção do mundo em 2016 como há tempos não fazia. Filmes como “A Criada” (que já ganhou uma crítica aqui no site) e “Invasão Zumbi” colocaram a Coreia no meio de disputados prêmios internacionais e nas salas de cinema de vários países, com o apoio quase unânime da crítica.

O Lamento (Goksung), do diretor Na Hong-Jin, também pode ser considerado responsável por isso. Ele foi abraçado pela crítica e pelo público, mas neste especificamente eu me esforcei em compreender a razão de tantos elogios que ele recebeu. Não consegui, embora eu tire meu chapéu para o desempenho do ator Kwak Do-Won.

Exibido no Festival de Cannes, o filme conta a história de um pacífico vilarejo que começa a testemunhar assassinatos cruéis cometidos pelos moradores. Os criminosos parecem estar fora de si, e as autoridades pensam que talvez tenham consumido cogumelos venenosos. No entanto, o inspetor de polícia Jong-Goo (Kwak Do-Won) suspeita que os casos tenham uma origem sobrenatural, ligada a um forasteiro japonês recém-chegado no local (interpretado por Jun Kunimura). Enquanto investiga o homem suspeito, o policial percebe que sua filha pode ser uma próxima vítima, e então decide chamar um xamã (Hwang Jeong-Min) para ajudar a eliminar o mal que assola aquela vila.

O pai de família Jong-Goo é o típico policial medroso de farda, acomodado com sua vida simples no interior e sem muitas expectativas com o futuro. Pago para proteger a pequena população daquela vila, é, no entanto um dos mais frágeis dentre todos eles, propiciando ao espectador hilárias cenas quando ele se vê dentro de uma confusão e mistério que não faz idéia do que se trata. Tudo muda, no entanto, quando os eventos começam a prejudicar seu trabalho e a interferir na vida de sua família, principalmente na de sua filha, Hyo-Jin.

Eis aqui a verdadeira reviravolta proporcionada pelo filme: a transformação de um preguiçoso e acomodado homem, para um incansável e corajoso pai em busca de respostas. É o ator Do-Won que salva o tom morno e lento de O Lamento. Com um jeito engraçado, sincero e humano de representar o policial, ele encanta tão somente com suas expressões, rendendo-se totalmente ao seu personagem. Se o filme permanecer na lembrança com o passar dos anos, será exclusivamente pelo seu desempenho, pois o restante certamente cairá no esquecimento.

Um filme superestimado

O Lamento (2016)

O olhar aqui sobre os outros aspectos do filme é de alguém já familiarizado com o cinema coreano, e não de um espectador acostumado com produções hollywoodianas que de repente se deparou com um filme totalmente estranho ao tradicional terror ocidental. Enquanto alguns exaltam a produção pela razão principal de ter causado certo choque, sobretudo cultural e religioso, eu infelizmente coloco este filme em um patamar muito abaixo do que o cinema coreano é capaz de nos presentear.

Não por questões artísticas, é claro. Afinal, O Lamento é ótimo se considerarmos a história, que preza a originalidade, a simplicidade e a precisão. A direção e a fotografia (esta reproduzindo maravilhosamente bem uma tranqüila e pacata cidade no interior da Coreia), também é algo a se considerar. Os próprios efeitos especiais e a caracterização também precisam ser reconhecidos, com um ou outro detalhe que destoa. Sobre isto, destaco o amadorismo dos movimentos dos atores que interpretam aquilo que parecem ser zumbis: eles me fazem questionar se se trata de um trabalho mal feito ou de uma necessidade de reproduzir um simples morador do interior que perdeu toda a sua consciência ao ser infectado por algo maligno.

A atuação de Jun Kunimura, o japonês da vila, também merece ser parabenizada, ainda que tenha poucas falas no filme. A criança Hwan-hee Kim, que interpreta a filha do policial Jong-Woo, também traz algo de especial. Ela se entrega, sobretudo fisicamente, nas cenas de possessão na qual chega ao limite da própria voz e do corpo para convencer o espectador. E consegue; se destacando muito mais do que certos personagens tecnicamente mais importantes (leia-se “a mulher-fantasma” com vestido branco, feita pela atriz Chun Woo-hee).

Mas, excluindo tais considerações, não há no filme nada muito violento, nada muito assustador, e definitivamente, não há nenhum ponto alto durante essas duras horas e meia de duração que não seja a transformação do policial Jong-Goo. Tudo poderia ser mais curto, sem necessariamente perder a beleza da lentidão – recurso este muito usado no cinema asiático em geral, mas explorado erroneamente nesta produção –. O roteiro, o principal responsável pela reprovação deste filme de minha parte, peca em não explicar pelo menos o mínimo para uma posterior liberdade do espectador em extrair sua própria interpretação, ou em não compensar toda a expectativa implantada em quem o acompanha.

Como explicado anteriormente, se não fosse o brilhante ator Kwak Do-Won, eu diria que realmente “lamento” (trocadilho proposital) ter reservado algumas horas do meu tempo para assistir a esse filme.

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