CRÍTICA | A Criada: O diretor Park Chan-Wook quer testar o seu limite

5 Stars (5 / 5)

A Criada (The Handmaiden), o novo filme do aclamado diretor Park Chan-Wook (o mesmo de Old Boy e Segredos de Sangue), mostra mais uma vez ao mundo o poder artístico e grandioso do cinema coreano. Exibido no Festival de Cannes em 2016 e eleito pelo público como Melhor Filme de Ficção Internacional na 40° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a nova produção de Chan-Wook brilha ao desafiar todas as nossas concepções.

Baseado no livro Fingersmith, de Sara Waters, e ambientado na Coreia dos anos 30, o filme conta a história da jovem Sookee (Kim Tae-Ri), contratada para trabalhar como criada para uma herdeira nipônica, a exuberante Hideko (Kim Min-Hee). Esta é uma nobre mulher que leva uma vida isolada ao lado do tio autoritário, e a outra é uma pobre moça que não tem muito que perder na vida. Mas Sookee, na verdade, guarda um grande segredo: ela e um vigarista, o Conde Fujiwara (Ha Jung-Woo), planejam desposar a herdeira, roubar a fortuna dela e depois trancafiá-la em um sanatório. Com o tempo, tudo parece correr bem com o plano, até que aos poucos nasce um intenso desejo dentro de Sookee.

A Criada (2016)

Com um ritmo rápido e equilibrado, o filme parece se esforçar em invalidar nossos próprios limites, principalmente nas cenas de sexo entre as protagonistas, mostradas aqui sem qualquer pudor, hipocrisia ou previsibilidade. O uso de acessórios nessas cenas e as risadas tímidas das personagens em momentos-chave podem sinalizar que nossa opinião na verdade não importa: fomos apenas privilegiados com a oportunidade de acompanhar essa história.

O elenco brilha no tom certo, cada qual dentro do seu próprio universo imaginário, como Cho Jin-Woong, na pele do tio cruel e sadomasoquista que finge ser japonês, e como Ha Jung-Woo, que surpreende em uma exploração segura da personalidade do Conde Fujiwara. Ainda assim, são as atrizes Kim Tae-Ri e Kim Min-Hee que, obviamente, roubam a cena.

Escolhida dentre milhares de candidatas, a atriz que interpreta a criada Sookee atua exatamente como deveria atuar – ou até o momento onde o diretor achou que deveria –. Ela encena uma pobre menina que foi criada no subúrbio e que viu uma oportunidade para mudar de vida, corajosa para encarar qualquer desafio mas sem a maturidade necessária para sobreviver em um mundo do qual nunca fez parte.

Lady Hideko, por outro lado, é o total oposto da criada: rica, elegante e recatada, é a princípio uma japonesa ingênua que prefere falar coreano e que mal consegue dormir a noite. A atriz que a interpreta, Kim Min-Hee, e sua ótima pronúncia do idioma nipônico, receberam uma salva de palmas de jornalistas japoneses na estreia do filme no Festival de Cannes. A atuação da moça foi tão convincente que foi difícil definir sua personagem mesmo vendo os créditos finais subirem pela tela.

O ritmo que as duas dão ao filme, impulsiona um interesse descabido do espectador pelo final, que na verdade parece recair sobre uma insana curiosidade humana, que aflora para o lado do sexo e da fantasia na medida em que o movimento dessas personagens acontece de modo imediato e impactante, com a câmera nos surpreendendo com uma alternância inesperada de cenas – por vezes tão distintas que choca em não nos preparar previamente para o que está por vir.

Se nossa opinião não importa, os eventos acontecem, pois, sem nossa permissão, e sem esperar que a confusão na nossa mente encontre um ponto de equilíbrio. A trama dentro do palácio não foi criada para nós, mas nos foi oferecida uma vista exclusiva, para acompanharmos de perto algo que está fora do nosso controle. As sensações que podem vir a despertar dentro de nós, podem, portanto, ganhar algum sentido e alento, ao passo em que a costura desse emaranhado jogo de erotismo e enganação une todo esse universo exuberante, naquele velho truque de projetar o espectador para uma realidade muito mais emocionante do que a dele própria.

Em outras palavras, devido a imprevisibilidade, somos transportados para dentro desse mundo, mas sem poder fazer absolutamente nada, a não ser assistir e controlar nossas próprias sensações. O previsível nos tranquiliza, nos aproxima daqueles que têm algo em comum com nós mesmos. Mas a surpresa do desconhecido assusta, afasta e atrai, em um vício previamente planejado para não nos deixar sair sem esperar o final da história.

A Criada (2016)

Poderíamos considerar uma familiaridade se lembrarmos de que se trata de mais um filme de Park Chan-Wook, mas ele também consegue encontrar uma maneira de despistar seus admiradores mais fieis. Certamente ele deve ser grato aos seus fãs, mas prefere ser fiel a sua necessidade em libertar-se das amarras do seu próprio limite artístico. Em “A Criada”, esse limite é mais uma vez ultrapassado, criando uma atmosfera visualmente bela para os olhos.

Ao mesclar a fotografia e os figurinos entre o período vitoriano inglês e o período imperial japonês, o diretor brilha em criar um universo único. O gótico, que dá um toque especial nas mais de duas horas de filme, enrique um roteiro já muito bem elaborado. Este, por si só, é o suficiente para tornar a experiência para o espectador inesquecível, graças a um bom contraste de pontos de vista, onde nada é o que parece ser, e tudo pode ser mais intenso do que já é.

“Uma criada é como um par de hashi. Quando está presente é ignorada, mas quando está ausente é que sentem que algo está faltando.”

A Criada (2016)

Outro elemento que dá a entender que o diretor brinca com os nossos limites, já mencionado anteriormente, são as cenas de sexo entre a herdeira e a criada. Carregado de suor, suspiros e criatividade, Hideko e Sookee não cessam nem quando decidimos que já basta. Mais uma vez, não somos nós que decidimos isso, tão pouco elas, carregadas de hormônios e de uma singela inocência de quem não sabe quando parar a brincadeira.

O sexo, exclusivamente entre essas mulheres, marca todo o filme como um sonho proibido, em uma Coreia aristocrática e conservadora. E é aí que um importante detalhe quase passa despercebido: os homens aqui são rebaixados como sendo pobres espectadores, excitando-se como podem ao assistirem a bela Hideko recitar alguns contos eróticos, ou como sendo os verdadeiros responsáveis por todo o sofrimento daquele mundo. É o amor ardente entre elas que define o tempo, e a nós cabe apenas o esforço para acompanhar.

Título original: Ah-ga-ssi / The Handmaiden Diretor: Park Chan-wook Ano: 2016
País:  Coreia do Sul Gênero: Drama, Romance, Suspense Elenco: Kim Min-Hee, Kim Tae-Ri, Ha Jung-Woo

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