A Batalha dos 3 Reinos: É possível uma abordagem Realista?

(PARTE 1)

“A Batalha dos 3 Reinos” (ou “Red Cliff”), é um dos filmes mais caros e mais bem sucedidos da história da Ásia. Ele foi dirigido pelo consagrado cineasta John Woo e conta com mais de 4 horas de duração. Seu contexto histórico é pouco conhecido pelos ocidentais, mas é muito familiar para os chineses: a Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), uma das mais prósperas eras da antiga China e que foi marcada por grandes avanços em todos os aspectos do país.

A sinopse resume que o ambicioso primeiro ministro da Dinastia Han, Cao Cao, pretende controlar todo o território chinês, e para isso, parte para o sul a fim de conter duas grandes forças rebeldes da região: as de Sun Quan e as de Liu Bei. Estando em clara desvantagem em relação ao numeroso exército de Cao Cao, os dois senhores de guerra, Sun Quan e Liu Bei, decidem fazer uma aliança para unirem suas forças, e assim combaterem as ofensivas do inimigo (naquela que ficou conhecida como a “Batalha de Chibi”).

O ano que envolve esse período (208 a.C.) é propagado como o início do fim da Dinastia Han, marcado por uma série de conflitos internos e externos de difícil precisão de dados. O resultado final de tudo isso foi o começo da turbulenta era dos Três Reinos – que durou de 220 a 280 d.C. –. Cao Cao, Sun Quan e Liu Bei, portanto, foram os principais responsáveis pelo estabelecimento dos três grandes reinados que se seguiram: o reino de Wei, o reino de Wu e o reino de Shu, respectivamente. O diretor Woo, entretanto, conseguiu simplificar a história na sua adaptação para o cinema, preferindo omitir conflitos políticos internos e direcionando o foco para os acontecimentos centrais. Ele se baseou no livro “Romance dos Três Reinos”, obra datada do século XIV e que é classificada hoje como uma das Quatro Grandes Novelas Clássicas da China. Outro livro que o influenciou fortemente foi “A Arte da Guerra”, do estrategista militar Sun Tzu.

Além disso, John Woo também procurou se limitar ao presente do fato, e de se abster dos registros históricos que compreendem um olhar “do alto” sobre o que aconteceu após o intervalo de tempo retratado. Isso implica dizer que ele procurou enxergar o ponto de vista dos dois lados naquele momento (desproporcionalmente, confesso), deixando livre um futuro “aberto” e incerto diante da impossibilidade de previsibilidade. A história mostrou que o período seguinte ao da Dinastia Han foi marcado por longos e turbulentos anos, mas o diretor procurou enquadrar sua adaptação na ideia de que o que viria a seguir poderia ou não ser pior do que o que se via até então.

A seguir, uma reflexão sobre a possibilidade de uma visão sob a ótica realista, mesmo considerando aspectos particulares da história da China. Essa é a PARTE 1 da análise deste filme.

Sobre a dificuldade de uma interpretação teórico-realista

O ator Takeshi Kaneshiro (como Zhuge Liang) e o diretor John Woo

Interessante notar que o filme se passa em uma época bem distante do surgimento da maioria dos primeiros estudiosos da teoria Realista; mais distantes ainda dos principais acontecimentos internacionais que moldaram a ordem mundial que conhecemos hoje, como as grandes navegações nos séculos XV e XVI e o Tratado de Vestfalia em 1648. Em 208 a.C, ano em que se passa a história de “Red Cliff”, não havia até então conceitos como “nação”, “estado” e “soberania”, nem os termos “chinês” e “China”. Na Dinastia Han, a nacionalidade da população era simplesmente “han”, e os estrangeiros não chamavam a China por este nome, mas de “Serica” (com o comércio entre eles e os romanos pela Rota da Seda, os romanos chamavam a seda de “seres”, e a terra de onde elas vinham de “Serica”).

Além disso, em um país historicamente imperialista como a China, todo o território pertencia somente ao Imperador, e a posse ilegítima de regiões dessa terra por senhores de guerra, criando uma sociedade própria, caracterizava-os como rebeldes traidores do rei. Não havia ali a hipótese da autodeterminação dos povos, que só viria a ser consentida no século XIX, ou qualquer direito internacional capaz de interferir sobre questões de legitimidade daquelas terras. Saliento ainda que o conflito entre essas três regiões se deu dentro de um único grande território, e, portanto, requer cuidado na análise uma vez que o “estrangeiro” não era o outro que governava regiões vizinhas, e que o termo “internacional” poderia se resumir apenas ao comércio de bens com os europeus.

Isso recai na ideia de que o conflito mostrado no filme é, sobretudo, um exemplo de “guerra civil”. Segundo James Fearon, ela se caracteriza como “um conflito violento dentro de um país entre grupos organizados que visam tomar o poder central ou em uma região, ou para mudar as políticas do governo”. Já Ann Hironaka afirma que um dos lados é o próprio Estado, e aponta questões econômicas e estruturais como razões de desencadeamento de uma guerra civil.

Ademais, há que se considerar ainda a evolução do pensamento chinês na proposta da análise: na Dinastia Han, o Confucionismo havia se tornado a religião oficial daquele Império, transformando não apenas o plano social e cultural, mas também o político e o jurídico. Buscar as razões de um conflito exclusivamente chinês perpassa obrigatoriamente na filosofia e religião que sustentam aquele país.

Seria possível, então, uma abordagem teórico-realista acerca do filme?

Primeiro ministro Cao Cao (Fengyi Zhang)

Se considerarmos a guerra como um elemento comum entre o Ocidente e o Oriente, e presente nos níveis interno e externo, é possível fazer algumas reflexões sob um olhar realista ocidental sobre as causas do conflito entre Cao Cao e os aliados do Sul.

Acompanhamos no filme o esforço de um governo opressor subjulgar aqueles que se opuseram ao seu poder, estes insatisfeitos com a má governança que observavam, sobretudo no trato com a população. Movidos pelo medo, pela busca de poder e sobrevivência, os rebeldes Sun Quan e Liu Bei fazem uma aliança para derrotarem o numeroso exército do governo de Cao Cao, independente das ideologias defendidas por cada um. As diferenças são deixadas de lado em benefício de um interesse compartilhado, e que poderiam ou não ser mantidas depois que o objetivo fosse alcançado. Tais questões envolvendo medo, poder, sobrevivência e aliança, são conceitos comuns entre os pensadores dessa teoria no intuito de explicar a realidade em que prostravam. Tucídides (471-400 a.C.), general grego que viveu muito antes dos conflitos do final da Dinastia Han, é um dos pensadores que deram a base para a formulação desse tipo de pensamento. Ele já havia refletido sobre o engajamento dos estados nas guerras, em razão do medo de não sobreviverem em um mundo onde um estado poderoso faz o que tem poder para fazer, e um estado fraco aceita o que não tem capacidade para reclamar. Ele também já apontava elementos típicos das relações internacionais, como dissuasão e cálculo de poder.

Há no filme uma preocupação moral, tanto no bem estar social quanto na tentativa de se fazer uma guerra justa – seja pelo objetivo de reunificação da China ou pela reivindicação de autonomia pelos rebeldes do Sul –. Mas ao comparar com a história real, não seria improvável que esse moralismo foi na verdade resultado de uma intervenção do diretor, com uma declarada intenção de passar uma mensagem antiguerra. Nicolau Maquiavel (1469-1527) defendia que os governantes deveriam fazer tudo que estivesse em seu alcance para atingir seus objetivos, independente das limitações morais. Em uma cena do filme, Cao Cao envia para o território inimigo alguns de seus soldados que sucumbiram a uma doença contagiosa, a fim de adoecer o maior número possível do exército inimigo. Em outra cena, a manipulação e a mentira são utilizadas como estratégia para enganar o oponente, disfarçadas de boas intenções e camaradagem.

Considerações Finais

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Cena de “A Batalha dos 3 Reinos”

Ainda que seja possível analisar “A Batalha dos 3 Reinos” sob uma ótica teórico-realista (e sob outras teorias também), algumas dificuldades são colocadas na medida em que surge a necessidade de enxergar aquele conflito também sob uma perspectiva  interna e chinesa. O que também complica essa tarefa é, obviamente, a lente do cinema em cima do que realmente ocorreu no final da Dinastia Han: John Woo se baseou em um romance que por sua vez se baseou na história.

Mesmo assim, o filme motiva automaticamente uma visão realista (enquanto a guerra como pano de fundo), embora muito se assemelhe a uma guerra civil. Ela é marcada, como vimos, por pensadores que influenciaram aquela sociedade, como Sun Tzu e Confúcio. O sucesso estrondoso do filme na Ásia também poderia ser mencionado como justificativa para uma análise metódica sobre a história, devido a sua capacidade de criar, fomentar e alterar a opinião do espectador sobre um acontecimento real.

Curiosidades

• O filme foi dividido em duas partes: a primeira lançada em 2008 e a segunda lançada no ano seguinte. Uma versão única, com cortes, foi lançada no Ocidente em 2009. Para fazer esse artigo, utilizei a versão original.

Referências Bibliográficas Utilizadas

* A formatação não segue o padrão da ABNT. Os links estão desorganizados por um problema de quebra de linha do meu editor. Peço desculpas.

DINASTIA Han. Wikipedia [Link] FEARON, James. Iraq’s Civil War. In Foreign Affairs. 2007 [Link] HIRONAKA, Ann. Neverending Wars: The International Community, Weak States, and the Perpetuation of Civil War. 2005. [Link] KEEFE, Terry. John Woo Unbound: The RED CLIFF Interviews. 2013. [Link] LESSA, A. C.; OLIVEIRA, H. A. O. (Coords.). Introdução ao Estudo das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva 2013.
NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais – Correntes e Debates. 2005. [Link]

Título original: Chi Bi Diretor: John Woo Ano :2008 / 2009 País: China Gênero: Épico, Guerra
Elenco: Tony Leung, Takeshi Kaneshiro, Fengyi Zhang e Zhao Wei

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