Flores do Oriente: Por que o Massacre em Nanquim ainda é um problema entre Japão e China?

“Flores do Oriente” é uma produção do diretor Zhang Yimou baseada na obra “The 13 Flowers of Nanjing”, da escritora Geling Yan. O filme se passa na China durante o primeiro ano da Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), no episódio que ficou conhecido como o Massacre em Nanquim. A história foca no agente funerário John Miller (Christian Bale) que vai a catedral Winchester (em Nanquim) providenciar o enterro de um padre que cuidava do local. Ao lado de um grupo de estudantes internas que encontrou por lá (e de um grupo de prostitutas vindas de um bordel da cidade), Miller luta para sobreviver aos ataques dos militares japoneses, na medida em que tenta encontrar um jeito de fugir do conflito.

Os títulos, tanto do filme quanto do livro, fazem referência às estudantes e às prostitutas que o personagem Miller encontrou na cidade: a guerra, portanto, foi equilibrada por dramas paralelos envolvendo relações humanas, preconceito, religião, fé e altruísmo, focados, de modo geral, na participação e perspectiva ocidental dentro de um conflito especificamente sino-japonês. Esses temas foram desenvolvidos com notável maestria pelo diretor, e merecem um artigo posterior apenas sobre isso. Mas este artigo vai focar na guerra enquanto contexto da obra, e por que ela ainda causa mal estar nas relações interasiáticas.

O contexto histórico de “Flores do Oriente”

the-flowers-of-war2
Zhang Yimou e Christian Bale filmando “Flores do Oriente”

Em razão de uma abordagem lírica e romântica na direção (uma marca reconhecida de Yimou), muitas atrocidades que ocorreram na época foram omitidas, ainda que algumas cenas dessem um indício do alto grau de crueldade.

O filme começa com uma criança narrando a luta desigual que acontecia entre os soldados chineses e japoneses, de uma forma notavelmente caricata: os chineses como sendo pobres de recursos, mas espertos e heroicos; e o exército japonês como sendo rico em armamento, porém ingênuo e tolo.

Mas os japoneses também foram mostrados como maníacos e pervertidos, sem o discernimento, por exemplo, de caçar crianças indefesas pelos corredores de uma igreja, ou de espancarem e estuprarem coletivamente uma prostituta. Em comparação, a história real da guerra mostra que tanto mulheres quanto crianças realmente foram abusadas sexualmente pela tropa japonesa, muitas delas sendo mortas em seguida. O número de vítimas até hoje é contestado, mas aproximadamente 200 mil foram abusadas, o que tornou comum chamar o episódio de “O Estupro de Nanquim”.

Já o termo “mulheres de conforto” se tornou popular para se referir àquelas vítimas, e não foi apenas em Nanquim (ou mesmo na China) que os soldados japoneses cometeram esses estupros. Além das chinesas, mulheres de outros territórios que também foram ocupados pelo exército imperial (como Coreia, Filipinas, Tailândia e Indonésia) também foram estupradas ou obrigadas a se prostituírem. Até mesmo muitas ocidentais foram vítimas dos soldados.

Em geral, a crueldade dos japoneses foi tão grande que chegou a gerar comparações com os alemães nazistas. Sabe-se que até gestantes foram estupradas e assassinadas: o feto era arrancado em algumas ocasiões, e em outras, os filhos foram obrigados a abusarem das próprias mães. Os chineses eram queimados e jogados no rio que banhava a cidade, chegando a congestionar o tráfego fluvial quando havia corpos demais para descartar. Há ainda registros de uso de armas biológicas e práticas de canibalismo e vivissecção sem anestesia. Milhares das vítimas dessas atrocidades foram civis e não-combatentes, caracterizando o ato dos japoneses como uma violação dos direitos internacionais de guerra acordados pela Convenção de Haia.

A maioria desses crimes não foi simulada no filme, mas o resultado final foi o suficiente para reascender o debate sobre Nanquim, incluindo a teoria de que, na verdade, nunca houve um massacre ou estupro em massa naquela cidade.

O Revisionismo de Nanquim: O Massacre foi uma propaganda de guerra

nankingmassacre1
Uma das fotografias divulgadas do Massacre em Nanquim

No aniversário de 13 de Dezembro que relembra a data da queda de Nanquim pelo exército imperial japonês (e que durou até Janeiro de 1938), e no aniversário da rendição japonesa que encerrou a Segunda Guerra Mundial (em 15 de Agosto), esse assunto é reavivado principalmente pelos países que foram vítimas dos crimes cometidos pelo Japão – destaque para a Coreia do Norte, Coreia do Sul e Taiwan –. Todos os anos um pedido formal de desculpas é exigido do país por essas nações – com um grau mais perceptível por parte da China –, e muitas mulheres ainda exigem indenizações pelos danos causados a elas.

As autoridades do Japão já emitiram ao longo dos anos vários pedidos formais de desculpas, embora os discursos tenham sido criticados na maioria das vezes – devido às interpretações variadas sobre as leis internacionais de guerra, ao uso de palavras japonesas de duplo significado, e de generalizações vistas como inconvenientes em detrimento de maior especificidade sobre a remissão –. Quanto às indenizações, o tema também é controverso, e o governo, além de já ter se desculpado especificamente sobre as “mulheres de conforto”, tem defendido também que se trata de um assunto já resolvido sob uma base legal desde o fim da Guerra, e tem evitado citar o assunto desde então.

Esse posicionamento defensivo do governo tem forte respaldo na teoria revisionista de que, na verdade, toda a história por trás do genocídio em Nanquim foi fabricada (ou inflada) pela China como propaganda de guerra; uma forma deles ganharem a simpatia do Ocidente e convencê-los sobre a crueldade e brutalidade dos militares imperiais japoneses. Tal teoria ainda possui grande relevância dentro do Japão, estando muitas vezes atrelada ao discurso nacionalista dos japoneses. Por meio do trabalho de pesquisadores e historiadores, a maioria do Japão, as provas deixadas sobre a guerra em Nanquim foram revisadas a fim de se verificar suas origens e seu contexto. Elas se resumem em fotografias, livros, registros de testemunhas e documentos oficiais dos governos envolvidos.

Entre os livros reconhecidos como provas concretas – e que tiveram grande repercussão – destacam-se “What War Means”, de Harold Timperley, publicado em 1938, e o polêmico “O Estupro de Nanquim”, de Iris Chang, publicado em 1997. O primeiro reúne alguns documentos oficiais e relatos pessoais do autor sobre a guerra. O segundo livro, mais elaborado e que gerou um grande debate, foi escrito a partir de uma série de fontes materiais, como relatos de missionários, filmes, fotografias, além de entrevistas que a própria autora fez com as vítimas ao fazer uma viagem a Nanquim. Outras fontes que também foram consideradas como provas incluem artigos publicados ainda durante a guerra pelo Chicago Daily News e pelo The New York Times.

Dos missionários presentes nos livros, três deles merecem destaque neste artigo: Minnie Vautrin, que foi presidente da escola feminina Ginling College; Miner Searle Bates, que atuou como professor na Universidade de Nanquim, e George A. Fitch, que dirigiu a Zona de Segurança criada na cidade para proteger os civis. A começar por Vautrin, a importância dos seus registros se justifica não só por servir como prova sobre o que aconteceu no conflito, mas também por ter inspirado a autora Geling Yan, cuja obra inspirou “Flores do Oriente”.

John Miller (Christian Bale), as prostitutas e as crianças da catedral
John Miller (Christian Bale), as prostitutas e as crianças da catedral

As crianças e as prostitutas mostradas no filme são baseadas em um relato da missionária no qual um grupo de militares japoneses invadiu a escola feminina onde ela estava refugiada (ela estava acompanhada das alunas internas e de algumas prostitutas que vieram de um bordel da região). Os militares estavam atrás das estudantes para servirem como mulheres de conforto, e foi neste momento que Vautrin enfrentou um grande dilema: deveria ou não entregar as meninas para os japoneses? De fato, o diretor Yimou também não deixou escapar esse dilema na sua adaptação para o cinema, tendo construído uma narrativa que estabeleceu esse momento como o seu grande clímax final.

Já os outros dois missionários, Searle Bates e Fitch, se destacam por supostamente terem tido relações com o governo chinês, o que comprometeu a veracidade de seus registros sobre a ocupação japonesa em Nanquim. Segundo apuraram os revisionistas, Bates era conselheiro do Ministério da Informação Nacionalista da China, e era ele o autor das notícias sobre Nanquim publicadas no Chicago Daily News e no The New York Times. Fitch, por sua vez, era amigo próximo do chefe de governo da China na época, Chiang Kai-Shek. Foi alegado também que o próprio autor de “What War Means”, Timberley, também era um conselheiro do Ministério de Informação Nacionalista, e que foi pago pelo órgão para publicar o seu livro. Tais dados, portanto, tirariam a credibilidade dessa obra por terem sido editadas de forma parcial a fim de impressionar os leitores.

Muitas outras afirmações foram contestadas pelos revisionistas, como o número total de mortos na cidade. Iris Chang, em seu livro, reuniu fontes na qual cada uma admitia um número diferente de vítimas, que variam entre 20.000 a 300.000 mortos. Na obra de Timperley, os revisionistas afirmaram que Bates expressou uma linguagem no sentido de que 12.000 civis e 30.000 soldados tinham sido mortos na cidade, mas que esse número foi “negado” ou alterado, tanto na versão chinesa da obra (que foi publicada em simultâneo) quanto em outros quatro livros publicados posteriormente. Eles também afirmaram que, segundo testemunhas de Nanquim, antes da ocupação japonesa, duzentas mil pessoas estavam na cidade, e que este número não foi reduzido depois de oito dias de ocupação japonesa. Não seria possível, portanto, que um número tão alto como 300.000 pessoas representasse a quantidade real de mortos nesse suposto massacre.

Além disso, eles afirmaram, também a partir de relatos de testemunhas chinesas e ocidentais (compiladas em documentos oficiais), as execuções que se viram seguiram os tratados internacionais sobre leis e crimes de guerra. Logo, seria impossível que o exército tivesse executado trezentas mil pessoas sem alguma testemunha ocular para comprovar tal ato. Nem mesmo no livro de Timperley, ainda segundo os revisionistas, foi possível identificar alguma testemunha de algum massacre que não foi permitido segundo os tratados advindos da Convenção de Haia.

Há ainda outras contestações importantes no caso, como as fotografias divulgadas da guerra, que na verdade, seriam montagens ou encenações que foram manipuladas para reforçar uma propaganda de guerra (e que inclusive, foram incluídas nas obras de Chang e Timperley). Quanto ao número de mulheres que foram obrigadas a servirem como mulheres de conforto para os japoneses, calculam-se entre 50.000 e 200.000 vítimas, números que também possuem controvérsias entre as versões chinesa e japonesa. A maioria delas, segundo documentos oficiais, foram chinesas e coreanas, a partir de um tráfico sistemático pela Ásia que durou entre o final da década de 1930 até a derrota do Japão em 1945.

Considerações Finais

Cena da dança "A Lenda do Rio Qin Huai"
Cena da dança “A Lenda do Rio Qin Huai”

Como vimos, o assunto envolvendo a guerra em Nanquim é extenso, em razão principalmente dos revisionistas que contestam as informações reconhecidas como provas do suposto massacre na cidade. O fato, entretanto, é que tais dados revelaram uma série de atos brutais cometidos pelo Exército Imperial japonês contra os residentes em Nanquim, caracterizando o episódio como um dos mais marcantes na Segunda Guerra Mundial. Se o Holocausto foi o acontecimento mais doloroso para o Ocidente no século XX, o conjunto de crimes de guerra do Japão Imperial certamente foi o mesmo para a Ásia.

A produção de Zhang Yimou, “Flores de Oriente”, procurou balancear tal episódio com um interessante drama envolvendo um grupo de crianças cristãs e um grupo de prostitutas de um bordel, liderados por um agente funerário que inicialmente não estava ali para ajudá-las. O desenrolar da história tocou em temas sensíveis às relações humanas entre ocidentais e orientais, e entre cristãos e não cristãos. Não é conveniente, portanto, não fazer uma breve menção a isso, ainda que a proposta desta análise tenha focado no contexto histórico no qual o drama foi inserido. Aproveito para destacar a brilhante cena em que o talento do diretor fez relembrar na memória antigas produções, como “Herói”, de 2002, e “Lanternas Vermelhas”, de 1991: na parte mais lírica do filme, as prostitutas cantam e coreografam a canção “A Lenda do Rio Qin Huai”, enquanto as assistimos através de projeções levemente desfocadas e as observamos em figurinos esteticamente fabulosos.

Não posso deixar de ressaltar também a proposta do diretor em trazer para o centro da narrativa o envolvimento ocidental na trama, que a história mostrou ter feito uma grande diferença na invasão japonesa nas cidades chinesas. O trabalho dos missionários e a criação da Zona de Segurança foram imprescindíveis no esforço de minimizar os danos da guerra, e Yimou procurou explorar isso na sua adaptação.

Curiosidades e Informações Extras
  • O livro de Geling Yan não é jornalístico, mas um romance, ainda que baseado em eventos reais. John Miller, o personagem de Christian Bale, não existe na obra.
  • Os crimes de guerra cometidos pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial foram julgados, em sua maioria, pelo chamado “Julgamento de Tóquio”.
  • Além das controvérsias em torno do Massacre em Nanquim, o grau de participação do imperador japonês Hirohito na guerra também é um dos assuntos mais discutidos até hoje, principalmente nas relações entre Japão, China e Estados Unidos.
  • Desde 1955, são realizados encontros no Japão anualmente para falar sobre o Massacre em Nanquim, trazendo testemunhas da guerra para darem seus depoimentos e para conscientizar os japoneses sobre os crimes ocorridos naquela época. O último encontro aconteceu em Tóquio em Dezembro de 2015, e atraiu cerca de 200 japoneses.
  • Na China, todos os anos, no dia 15 de Agosto, são realizadas passeatas na cidade de Nanquim em memória ao conflito, contando com chineses, japoneses e coreanos, e com a participação de diversas ONGs.
  • Em 14 de Outubro de 2016, as consequências do Massacre gerou um novo atrito nas relações sino-japonesas, dessa vez envolvendo a Unesco. O Japão recusou-se a pagar sua parte do financiamento da instituição, em protesto à decisão da ONU, 1 ano atrás, de incluir os documentos referentes ao Massacre no seu “Registro da Memória do Mundo”
Referências Bibliográficas Utilizadas

* A formatação não segue o padrão da ABNT. Os links estão desorganizados por um problema de quebra de linha do meu editor. Peço desculpas.

Diário do Povo Online. Entidade japonesa faz reunião com testemunhas do Massacre de Nanquim. 2015. [Link] HIGASHINAKANO Shudo. The Nanking Massacre: Fact versus Fiction. [Link] MATSUMURA, Toshio. No American witnessed the Nanjing Massacre. [Link] Ministry of Foreign Affairs of Japan. Perguntas e Respostas sobre Questões Históricas (em Inglês). Última atualização em 2016. [Link] O Globo. Japão retém verba à Unesco após polêmica sobre Massacre em Nanquim. 2016.[Link] POLLARD, Lawrence. The story behind Chinese war epic The Flowers of War. 2012. [Link] Portal Vermelho. China comemora 71º Aniversário da vitória na Segunda Guerra Mundial. 2016. [Link] Wikipedia. Massacre de Nanquim. Última atualização em 2016. [Link] Wikipedia. Revisionismo do Massacre em Nanquim. Ultima atualização em 2016. [Link]

Título original: The Flowers of War/Jing Ling Shí San Chai
Ano de Lançamento: 2011 País: China/Hong Kong Gênero: Drama/Guerra

Artigos Relacionados

Deixe um comentário