15 de Agosto: A Rendição Japonesa em ‘O Imperador’

O mês de agosto marca o aniversário de um importante evento na História: a rendição japonesa que pôs um fim na Segunda Guerra Mundial. Todos os anos, no Japão, líderes políticos e a população prestam homenagens às vítimas e aos soldados japoneses que lutaram durante a Guerra. Ao mesmo tempo, grandes questões mal resolvidas ressurgem junto às homenagens, como a inclusão dos que foram condenados como criminosos de guerra no templo xintoísta Yasukuni e a reivindicação chinesa, coreana e taiwanesa de um pedido formal de desculpas do primeiro ministro do Japão em vigência – em razão dos crimes cometidos contra eles. Sobre isso, há um debate que dura até hoje sobre a absolvição do Imperador Hirohito ter influenciado as responsabilidades do Japão sobre os crimes.

E é sobre esta absolvição de Hirohito que o filme “Imperador” aborda: trata-se de uma coprodução japonesa e estadunidense do diretor Peter Weber, baseada na obra “His Majesty’s Salvetion”, de Shiro Okamoto. O filme foi lançado em 2013 e que conta com os atores Matthew Fox, Tommy Lee Jones e a atriz Eriko Katsune. A trama se desenvolve enquanto o General Douglas MacArthur (interpretado por Jones) decide se deve ou não condenar o imperador Hirohito sobre os crimes cometidos na Guerra. Para isso ele atribui ao General Bonner Fellers (interpretado por Fox) a tarefa de fazer as devidas investigações no prazo máximo de 10 dias. Enquanto isso, Fellers também sai em busca de sua amada Aya Shimada (Eriko Matsune), uma professora japonesa que conheceu antes do início do conflito, mas que agora não sabe se ela ainda está viva.

A maioria das críticas recebidas pelo filme foi negativa, e ele arrecadou em bilheteria pelo mundo menos de quatro milhões de dólares. Os fatores mais criticados foram a atuação inexpressiva de Matthew Fox, o romance desnecessário de Fellers e Aya e a ausência de outros acontecimentos importantes durante o período cuja história do filme aborda. Contudo, ainda é uma obra cinematográfica interessante para quem deseja se aprofundar no Pós-Segunda Guerra, considerando que quase não há filmes que focam exclusivamente neste momento depois da Rendição. Sobre a ausência de outros eventos importantes, devemos lembrar que o filme focou no protagonismo de Bonner Fellers, que foi historicamente um personagem secundário na história da rendição japonesa, ao contrário de MacArthur que sempre foi visto como o grande responsável por esse desfecho.

O verdadeiro Bonner Fellers

O general Bonner Fellers (esquerda) e Mattew Fox caracterizado (direita)
O general Bonner Fellers (esquerda) e Mattew Fox caracterizado (direita)

Mathew Fox atuou com coerência e expressividade no papel de um general que ficou encarregado de uma grande missão, na qual o futuro de um país dependeria desse desfecho. Ao mesmo tempo teve que buscar o próprio equilíbrio emocional enquanto descobria o paradeiro de Shimada. O romance entre os dois personagens foram necessárias no filme a fim de amenizar o delicado tema que foi abordado. Fox chegou a afirmar isso em uma entrevista no ano de lançamento do filme: ele também comentou sobre ter tido maior liberdade para atuar considerando haver poucas informações sobre seu personagem.

Mas a vida do real Fellers não era pouco conhecida como parece. Segundo Haruo Iguchi, um pesquisador que pretende lançar um livro sobre a vida do general, a personalidade dele era não apenas incisiva como também influente nos meios em que ele se postava. Em “Imperador” o militar foi mostrado como um homem racional e objetivo quando estava em serviço, e benevolente e solitário quando estava longe de suas atribuições. O restante do corpo militar o via como alguém que tem um profundo apreço pela cultura japonesa. O filme também mostrou indícios de descontentamento de Fellers com o general MacArthur, na medida em que este posava para fotos da imprensa enquanto seu subordinado ficava com toda a responsabilidade do julgamento de Hirohito.

O pesquisador Iguchi, que é professor de Política Internacional na Universidade de Nagoya, no Japão, descreveu o general como “um homem tremendamente ambicioso que posava algum perigo para ambos os governos japonês e americano”. Ele realmente tinha um grande interesse pela cultura nipônica, desde o Imperador até as superstições locais. Aprofundou-se no autor Greco-japonês Koizumi Yakumo a partir da amizade que fez com uma universitária japonesa nas suas idas ao país antes da Guerra (o romance no filme não existiu na vida real, mas foi inspirado nesta amizade). Para o professor, no entanto, esse interesse pelo Japão talvez não tenha sido apenas genuíno, mas também fruto de uma estratégia pessoal em um momento que a América começava a ver aquele país como uma ameaça potencial. “Fellers deve ter pensado que ser um especialista sobre o Japão seria vantajoso para ele […] Eu acho que ele foi muito valorizado pelos líderes como MacArthur e Hoover (por isso)”. Seu relacionamento direto com MacArthur foi pouco explorado no filme, mas ainda segundo o professor, Fellers tinha a ambição de ajudar seu colega republicano a se tornar presidente dos Estados Unidos, usando a influência que tinha dentro do partido.

As consequências da absolvição de Hirohito

Turistas visitando o templo Yasukuni no 71º aniversário da Rendição Japonesa
Turistas visitando o templo Yasukuni no 71º aniversário da Rendição Japonesa

A intenção do filme não foi mostrar o que aconteceu com o Japão depois que o Imperador e sua família foram inocentados, mas alguns fatores advindos desse evento ainda podem ser observados nos dias de hoje. Destaco aqui, rapidamente, dois deles: a transição japonesa para a democracia e o debate sobre a culpa do Japão pelos crimes de guerra. O primeiro fator é defendido por muitos especialistas como uma consequência positiva da rendição daquele país, já que ele teve que aceitar uma série de condições para seu imperador ser absolvido dos crimes, bem como receber auxílio financeiro e político para se reconstruir e voltar à plena atividade econômica.

O segundo fator, que tem a ver com os crimes de guerra, é um tema mais complicado e que ainda gera bastante polêmica, principalmente entre o Japão e seus vizinhos que sofreram com a política expansionista do país. A China, a Coreia do Sul e Taiwan, entre outros países, vem reivindicando um pedido formal de desculpas por parte do governo japonês por todos os crimes cometidos contra eles, e o Japão tem se desculpado por isso em diversas ocasiões, embora sem deixar claro pelo o quê esteja se desculpando exatamente. A principal tensão sino-japonesa gira em torno do Massacre em Nanquim, onde milhares de mulheres e homens chineses foram escravizados, abusados, torturados e mortos pelos japoneses. As chamadas “damas de conforto”, composta majoritariamente por coreanas e chinesas, também têm sido motivo de tensão entre esses países, e o Japão nunca chegou a admitir a responsabilidade sobre esses casos em específico. A relação costuma complicar ainda mais quando as autoridades do país (principalmente o primeiro ministro) visitam o templo xintoísta Yasukuni – um santuário que serve como memorial aos mortos de guerra (sejam eles japoneses, coreanos ou chineses), mas que também passou a incluir os quatorze japoneses que foram condenados por crimes de Classe A (crimes contra a paz). E é essa inclusão em especial que tem causado maior controvérsia entre as autoridades asiáticas.

Conclusão

“Imperador” é um filme que não teve uma boa recepção do público, mas merece ser assistido para quem tem interesse em se aprofundar em eventos específicos que ocorreram na Segunda Guerra Mundial. Por ser talvez a única produção ocidental que abordou a condenação do imperador Hirohito, ela certamente será incluída nas listas de recomendações de filmes sobre História. Pudemos observar aqui que a dramatização não foi muito bem aceita, embora eu desconfie que tivesse sido pior se o diretor não tivesse incluído o romance dos personagens. Trata-se de uma parte da História que não se permite incluir cenas de ação, considerando o general Bonner Fellers como o protagonista e delineador dessa trama. Vimos também aqui que apesar de haverem poucas informações sobre esse general, há registros que indicam que ele era uma personalidade mais importante e influente do que o filme quis mostrar. E por fim, pudemos também compreender a importância do tema trazido a partir das relações atuais entre o Japão e os seus vizinhos, movidos por diversas polêmicas ainda mal resolvidas.

Referências Bibliográficas Utilizadas

* A formatação não segue o padrão da ABNT. Os links estão desorganizados por um problema de quebra de linha do meu editor. Peço desculpas.

FAZIO, Giovanni. Fox tackles history in “Emperor”. 2013 [Link] OSAKI, Tomohiro. Forgoing visit, Abe sends ritual offering to Yasukuni Shrine on war anniversary. 2016 [Link] SHINBUN, Chunichi. Was Fellers friend of Japan or master manipulator? 2013 [Link]

Título Original: Emperor País: EUA/Japão Ano de Lançamento: 2013 Direção: Peter Weber Gênero: Drama, História

 

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