O Conto da Princesa Kaguya: A mensagem escondida

PARTE 2 – Contém Spoilers

Na primeira parte da análise de “Kaguya” (você pode lê-la aqui), vimos que o diretor Isao Takahata alterou dois aspectos muito importantes da história original de “O Conto do Cortador de Bambu”, a fim de criticar uma situação de patriarcalismo no Japão: a repressão sofrida pela princesa Kaguya (que na fábula ela era livre e autônoma), e o autoritarismo do velho Sanuki – que a princípio respeitava as decisões da filha, independente de quais fossem. Também vimos que a atitude rebelde da princesa ao longo do filme significou uma rejeição aos costumes da época, embora isso não tenha sido suficiente para livrá-la das condições em que se encontrava enquanto assumia o posto de uma nobre princesa.

Focando agora nas mensagens trazidas com a obra, muitas lições poderiam ser aprendidas, como a necessidade de não nos fixarmos às coisas materiais (Kaguya preferia a vida simples no campo à vida luxuosa no Palácio, ou o amor do pobre Sutemaru a um amor forjado de um rico príncipe); ou ainda a necessidade de tomarmos nossas próprias decisões, ainda que possamos contrariar aqueles que nos amam. Contudo, tanto nessa obra de Isao Takahata quanto no conto do qual o filme foi adaptado, precisamos compreender que o Budismo e o Xintoísmo exerceram uma grande influência, obviamente por serem as religiões predominantes no Japão. Logo, apesar do filme poder ser interpretado a princípio de forma neutra e universal, foram justamente os princípios dessas religiões que deram a base para todas as mensagens trazidas com ele. E a principal mensagem que o anime de Takahata quis mostrar, e que talvez não tenhamos notado à primeira vista, pode ser resumido em uma única palavra: DESAPEGO.

Como assim?

Para entendermos melhor, vamos compreender primeiro como o Budismo enxerga o apego humano e por que ele é considerado um problema para essa religião.

A visão budista sobre o apego

Kaguya com uma coroa de princesa
Kaguya com uma coroa de princesa

Buda, em seu primeiro sermão após experimentar a Iluminação debaixo de uma figueira, falou sobre os ensinamentos que viriam a ser as bases da religião budista: As Quatro Nobres Verdades. A primeira nobre verdade dita por Buda é que existe o sofrimento no mundo. Já a segunda afirma que há uma origem ou causa para esse sofrimento; a terceira diz que existe a possibilidade de cessar esse sofrimento, e a afirmação de que há um caminho para abandoná-lo corresponde a quarta e última nobre verdade.

Para o Budismo, existe um ciclo de sofrimento e renascimento que não tem fim para o ser sensciente, chamado de Roda da Vida ou Samsara. Isso implica dizer que tudo o que existe no mundo pode fazer o ser humano sofrer, desde as coisas materiais até os seus próprios sentimentos. Até o ciclo natural da vida é passível de sofrimento. Em uma das mais famosas assertivas de Buda, ele diz: “Nascer é sofrer, envelhecer é sofrer, morrer é sofrer, estar unido com aquilo de que não gostamos é sofrer, separarmo-nos daquilo que amamos é sofrer, não conseguir o que queremos é sofrer”.

A razão do humano sofrer constantemente está relacionada principalmente com o seu ego – a ideia de que ele está “separado” do resto do mundo, quando na verdade tudo está interligado –, com a inconsciência sobre a impermanência das coisas – isto é, não compreender que tudo está em constante mudança e que nada pode ser aprisionado para sempre –, e ainda, a insistência pelo desejo ou pela repulsa, quando o ser humano deixa esses sentimentos levá-lo ao apego ou a aversão. Dito isso, a terceira e quarta nobre verdade trazida por Buda vem afirmar que há um caminho para pôr fim a esse sofrimento, e que obviamente perpassa pela cessação desse desejo vicioso e pela eliminação desse ego interior. O fim completo do sofrimento leva ao o que o Budismo chama de Nirvana, que corresponde a um estado de ser puro, liberto e permanentemente amável; longe do egoísmo, do apego e do ódio.

"O Conto da Princesa Kaguya" (2013)
O Conto da Princesa Kaguya

No filme, a princesa Kaguya, durante sua infância no campo, teve a oportunidade de viver de forma livre e sem grandes responsabilidades, longe das regras e dos costumes da cidade grande. Talvez só tenha tido consciência disso depois que seu modo de vida foi radicalmente alterado no palácio. Na capital ela passou a viver de uma forma contrária à ideia que construiu de felicidade, que era brincar no bosque com os amigos, ajudar os pais com as tarefas diárias e estar sempre em contato com a natureza. Em não compreender que as coisas da vida são impermanentes e que estão em constante mudança, ela se apegou de tal maneira à sua antiga vida que o sofrimento que sentiu ao reconhecer que dali para frente seria uma princesa foi inevitável. Entretanto, se tivesse consciência da mutação da vida ela poderia reagir de outra forma ao novo estilo de vida que foi imposta a ela, ainda que pareça difícil de imaginar, considerando as restrições e as obrigações que foi obrigada a respeitar.

Sutemaru, seu amigo de infância e que foi sua primeira paixão, também representou para ela um forte apego pelas coisas mundanas, e isso pôde ser observado nos momentos em que ela pôde reencontrá-lo. Os dois estariam dispostos a largar tudo para fugirem e viverem felizes em algum lugar distante: em razão do apego, ela deixaria seus pais e seu palácio e ele abandonaria seu filho e sua esposa, e partiriam rumo a um futuro incerto e mal planejado.

Mas a hipótese de que o desapego foi a principal lição do filme ganhou mais força a partir do momento em que o príncipe da corte do Japão surpreendeu Kaguya no palácio. Ao tê-la abraçado por trás e sem o seu consentimento, a princesa sentiu-se invadida e insegura, tendo ido até seus pais relatar o acontecido. Nesse momento entendemos finalmente a razão de Kaguya saber a canção que inconscientemente costumava alterar a letra: ela na verdade pertencia à Lua e foi mandada para a Terra pelo desejo de voltar ao planeta pelo apego que tinha pela vida e pelas pessoas de lá. “Se eu ouvir que anseiam por mim, eu voltarei para vocês”, dizia a parte da música alterada por Kaguya. No instante em que teve seu espaço invadido pelo príncipe da corte, ela pediu em sua mente que a levassem de volta para sua verdadeira casa. Porém, no diálogo com seus amorosos pais, ela voltou atrás e se arrependeu do pedido, preferindo ficar na Terra ao lado daqueles que amam.

Buda e seus "bodhisattvas" nos momentos finais do filme
Buda e seus “bodhisattvas” nos momentos finais do filme

Esse “ciclo” vicioso, que parte do apego pela vida humana (seus pais, Sutemaru, o lado bom das pessoas, a natureza) mas que esbarra na aversão por essa mesma vida (em razão do estilo rígido e oprimido que Kaguya levava; o assédio de tantos homens, a sensação de artificialidade que sentia sendo uma princesa) representa para o Budismo nada menos do que a Roda da Vida. Um ciclo agonizante e sem fim que o ser humano não consegue se livrar justamente por não compreender as principais características das coisas mundanas (de um modo geral), segundo essa religião: a impermanência, a insatisfatoriedade e a insubstancialidade. As três, se mal entendidas, levariam às causas do sofrimento, entre elas o apego e o egoísmo.

Contudo, há ainda outro momento que corrobora a ideia do desapego no filme, e eu diria que esse é o que mais “entrega” a intenção da história em elucidar um ensinamento budista.

Na tocante sequência final, na qual os habitantes da Lua descem á Terra ao som de uma contagiante canção para buscar a princesa, o último diálogo entre ela e eles, antes do filme acabar, mais uma vez revela a ideia do Samsara, ou Roda da Vida:

“Eles: – Venha conosco, para a pureza da Cidade da Lua. Deixe para trás as lamentações e sofrimento deste mundo.
Kaguya: – Não há sofrimento aqui! Há alegria e lamentação. Todos que vivem aqui sentem cada um em todas as suas diferentes formas! Há pássaros, besouros, bestas, gramas, árvores, flores… e sentimentos.”

A princesa Kaguya e os "habitantes" da Lua
A princesa Kaguya e os “habitantes” da Lua

Em seguida, um robe é colocado nas costas de Kaguya, apagando todas as suas memórias da Terra e eliminando toda a tristeza que havia em seu interior. Esse manto é, portanto, uma simbologia para a Iluminação budista. E em um último segundo, antes de desaparecer no céu, Kaguya olha para baixo em direção à Terra, mesmo não se lembrando mais do seu passado naquele lugar. Embora as teorias sobre isso variem, se basearmos o filme sob a perspectiva do desapego, essa última atitude da princesa pode representar o sentimento da compaixão, que para o budismo significa um caminho essencial na busca da Iluminação. Tal sentimento, de modo geral e simplório, se equivale à necessidade de amar o próximo e desejar que este se liberte do sofrimento. Ao deixar seus pais chorando na Terra pela sua partida quase que forçada, estes últimos segundos do filme trazem um alento para o sofrimento mundano, e a esperança de que há amor mesmo na ausência do apego.

Conclusão

Como vimos, “O Conto da Princesa Kaguya” aborda assuntos que podem ir além de uma observação à primeira vista, fazendo do último filme de Isao Takahata uma grande obra. Na PARTE 1, pudemos compreender a história a partir de um olhar crítico sobre a sociedade, no qual o patriarcalismo foi o grande alvo do diretor. Na segunda parte, no entanto, a análise se deu sob o ponto de vista do Budismo, e pudemos conhecer a história de Kaguya a partir de um ângulo filosófico-religioso, voltado para a complexidade da raça humana. O desapego, como principal lição do filme, se apresentou sob diversas formas enquanto que as mensagens mais facilmente perceptíveis conduziram a trama, necessitando compreender alguns ensinamentos budistas para enxergar um lado pouco claro da história.

Logo, se o apego foi a grande crítica “escondida” por trás das aventuras e dificuldades da princesa, a lição da compaixão talvez seja a deixa para uma reflexão posterior por parte de nós, espectadores. O que você acha?

Curiosidades

  • A data em que os habitantes da Lua chegam á Terra para buscar Kaguya é 15 de Agosto, a mesma data em que o Japão oficialmente se rendeu aos Estados Unidos, pondo fim à Segunda Guerra Mundial.
  • A cena dos habitantes da Lua é uma representação de uma famosa pintura japonesa da Era Kakemura (1185-1333), no qual vemos vários bodisatvas (seres humanos que alcançaram a Iluminação) descendo em cima de nuvens anunciando uma passagem para outro mundo.
Referências Bibliográficas Utilizadas

* A formatação não segue o padrão da ABNT.

COLLIN, Robbie. The Tale of the Princess Kaguya: ‘one of Ghibli’s greatest’. 2015. (Link)
DHARGUYE, Karma Tenpa. Grupo Virtual – Texto 005 – As Quatro Nobres Verdades.
GAARDER, HELLEM, NOTAKER; Jostein, Victor e Henry. O Livro das Religiões. 2006.
SUMEDHO, Ajahn. As Quatro Nobres Verdades. 2007.
XR, Marcus Valerio. Análise do Conto de Fadas: Kaguyahime – A Princesa da Lua. 2000. (Link)
KAMEN, Matt. Studio Ghibli’s Isao Takahata on animating his final film. 2015.

Título Original: Kaguya-hime No Monogatari País: Japão Ano de Lançamento: 2013 (2015 no Brasil) Direção: Isao Takahata Gênero: Animação, Drama, Fantasia

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2 Comentários

  1. Perfeita analise. A primeira vez que vi este filme não compreendi todos os seus aspectos e sabia que havia algo a mais que eu precisava compreender. Na segunda vez, já passei a entender melhor a historia na visão do budismo e essa questão do desapego que sempre é muito difícil para nós, humanos. Com sua analise fiquei mais interessada em assistir por mais uma vez para fazer a compreensão do Patriarcalismo. Mais uma vez, parabéns pela analise!
    Debora

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