Veja a Review do “O Universo de Miyazaki | Otomo | Kon” em Brasília

Depois de passar por várias capitais do país, aconteceu em Brasília (DF) o evento “O Universo de Miyazaki | Otomo | Kon”, que exibiu 18 longas-metragens de três expressivos diretores japoneses de anime e mangá. A mostra, ocorrida entre os dias 12 e 22 de Janeiro de 2015, lotou o teatro da CAIXA Cultural da cidade. Além dos filmes, o evento também trouxe um curso de 4 dias sobre Animação e Mitologia Japonesa, e uma oficina de mangá de 3 dias voltado para as técnicas utilizadas pelos mesmos diretores exibidos na mostra.

Com a casa cheia, foi o longa de 2013 “Vidas ao Vento” (Kaze Tachinu), apresentado por Miyazaki como seu filme de despedida, que abriu o evento. Indicado ao Oscar em 2014, ele conta a história de Jiro Horikoshi, projetista de máquinas voadoras que trabalhou na construção de aviões durante a Segunda Guerra Mundial. Tido como a obra menos fantástica feita por Miyazaki, o filme chegou a ser criticado por humanizar ninguém menos que o projetista do Mitsubishi A6M Zero – um dos aviões mais engenhosos durante a Guerra e que foi usado no ataque a China e ao Pearl Harbor. Dentre os outros filmes exibidos, têm-se “A Viagem de Chihiro” (Vencedor do Oscar em 2013), “O Castelo Animado” e “Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar”. Obras mais antigas e pouco conhecidas no Ocidente também fizeram parte da mostra, como “Porco Rosso”, de 1992, e “O Castelo do Céu”, primeiro filme oficial do Studio Ghibli lançado em 1986.

Katsuhiro Otomo foi outro diretor que teve suas animações exibidas no evento. Com o cyberpunk “Akira”, Otomo não só reinventou a estética de animação japonesa, como também redefiniu a relação do anime com o Ocidente. Neste filme, um motoqueiro com poderes psíquicos se vê numa trama sobrenatural na cidade de Neo-Tokyo, construída no lugar de Tokyo depois de esta ter sido devastada durante a III Guerra Mundial. Foi a animação mais cara já feita pelo Japão, até o lançamento de “Steamboy”, de 2004 e também criado por Otomo. Ele quebrou o próprio recorde de orçamento com essa história do jovem inventor Ray Steam, vivendo uma aventura em uma Inglaterra ameaçada de extinção por uma poderosa bola de metal.

Assim como nas obras de Hayao Miyazaki, a influência europeia também está presente nas de Katsuhiro Otomo, como em “Metropolis”, embora este ele tenha participado como roteirista, deixando a direção à cargo de Rintaro. Baseado em um mangá (este inspirado na ficção científica “Metropolis”, de Fritz Lang), o filme conta a história de uma robô na cidade futurística que dá título à obra, em volta de um conflito focado na questão da substituição dos homens pelas máquinas. Apesar de apenas esses três filmes terem sido exibidos na mostra (quando a filmografia de Otomo passa até por produções live-actions), eles serviram como porta de entrada para quem deseja ir além de um tipo de anime que é praticamente dominado por Hayao Miyazaki.

Outro diretor que não ficou de fora foi Satoshi Kon, que deixou uma legião de fãs tristes ao falecer em 2010 por um câncer no pâncreas. A maior parte da sua carreira se deu como mangaká e assistente de Otomo. Dirigiu o thriller psicológico “Perfect Blue”, lançado em 1998, e o drama “Atriz Milenar”, de 2001. No primeiro, uma cantora desiste de seguir carreira na música para ser atriz em um seriado policial, até ser perseguida por um fã quando ainda era cantora, levando-a em um jogo entre ficção e realidade. Esta temática entre o irreal e o real, inclusive, tornou-se marca registrada do diretor. Em “Atriz Milenar”, sonhos e realidade se misturam na história de uma anciã que já foi estrela de cinema, revivendo memórias marcadas principalmente por terremotos.

“Tokyo Godfathers”, de 2003, e “Paprika”, de 2006, também foram exibidos no evento. O primeiro conta a história de três mendigos – um deles travesti, que partem em uma jornada para encontrar os pais de um bebê que encontraram abandonados durante a véspera de Natal. No segundo, mais uma vez fantasia e realidade se misturam: uma psicoterapeuta investiga uma série de comportamentos esquisitos por causa de um poderoso aparelho que permite penetrar nos sonhos das pessoas. Jansen Raveira, curador e professor do curso ministrado no evento, destaca no catálogo distribuído aos participantes, uma passagem de uma crítica do Manohla Dargis publicada no The New York Times: “É a evidência de que os animadores japoneses já estão alcançando a lua enquanto os americanos ainda estão brincando no playground.”

O Curso

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Professor Jansen ministrando o curso em evento em Brasília. Foto tirada pelo celular

A comparação entre japoneses e americanos também foi essencial para entender a história do anime, ministrado no curso por Jansen. Agraciado com 17 prêmios pelo curta de animação “Como Comer Um Elefante”, o professor contou a trajetória da animação desde os primeiros filmes da Disney – com seus personagens notadamente “fofos” que começa na década de 20 e tem o seu auge nos anos 40 -, até as suas influências na produção japonesa de animes. O público da época, segundo Jansen, costumava ir ao cinema para “fugir” da guerra, como forma de alienação da realidade. Os animadores norte-americanos daquele tempo também apresentavam certa fixação pelo realismo na técnica da animação, algo que viria a ser ignorado como prioridade já nos anos 50, possibilitando maior liberdade artística.

É também após a Segunda Guerra que começam a criar séries de animações infantis feitas para a televisão, nascendo aqui a ideia de que animação é algo exclusivamente infantil, ao invés de simplesmente autoral, sem a necessidade única de ter as crianças como público-alvo. Miyazaki ver-se-ia ser um dos diretores que viriam fugir dessas produções para a TV, quebrando também tradições como: não fazer animes somente derivados de mangás, recusar-se a fazer séries, e não criar roteiros em que responsabiliza o final de um filme como o ápice auto-explicativo da trama.

Janete Oliveira, professora assistente de Letras/Japonês na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), também participou do curso, onde abordou a Mitologia Japonesa nas obras de Hayao Miyazaki. Janete também é doutoranda em Literatura pela PUC-Rio.

É recorrente nos longas do diretor temas e cenários relacionados á natureza e ao meio ambiente, bem como cidades fortemente influenciadas por lugares reais da Europa. Valores budistas e animais representativos das religiões Xintoísta e Budista também são frequentes nos filmes. Deuses, seres ancestrais e criaturas monstruosas, estas últimas nem sempre com conotações negativas, sempre fizeram parte da mitologia popular no Japão, e Hayao Miyazaki não deixou isso de lado ao criar seus personagens. Mas como nem todo anime se resume a ele, o curso também apresentou trailers de trabalhos de outros expressivos diretores, como Makoto Shinkai (“5 Centímetros por Segundo”, de 2007), Takahiro Omori (“Hotarubi No Mori e”, de 2011), e Isao Takahata, diretor de “O Túmulo de Vaga-lumes” que disputa o Oscar de 2015 por “O Conto da Princesa Kabuya”.

* A ilustração que destaca esse artigo foi retirada do site oficial do evento: http://nuage.art.br/mok/

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