Lição do Mal: A genialidade gore de Takashi Miike

Contém Spoilers

O cineasta Takashi Miike é mundialmente conhecido por incrementar em suas produções cenas de extrema violência com muito sangue derramado. E em Lição do Mal não fez diferente. Aqui, nos é apresentado o jovem professor Seiji Hasumi, que leciona Inglês em uma escola particular nos subúrbios de Tóquio. Profissional de boa reputação, é respeitado pelos colegas de trabalho e amado pelos estudantes. Entretanto, seu charme na verdade esconde uma sociopatia que o impossibilita de sentir qualquer empatia pelas outras pessoas. Em meio a caóticos banhos de sangue derramados, o que me chama a atenção é que, de modo a principio cauteloso, a trama nos envolve em um grande combate entre o professor e os estudantes, fazendo-me refletir tanto sobre a psicopatia de Hasumi quanto o curioso comportamento dos alunos – principalmente quando estão correndo risco de morte. À seguir, você vai compreender melhor por que este filme é um dos melhores do gênero horror na Ásia, e um dos melhores de Miike.

Entendendo a história: Professor Hasumi e os alunos do colégio

“Aku No Kyôten”, primeiramente, é baseado no best-seller de mesmo nome do aclamado escritor de novelas de horror, Yusuke Kishi, publicado em 2010. Portanto, é importante que se entenda que o diretor trabalhou sobre parâmetros pré-determinados ainda no livro, ainda que goze de certa liberdade criativa. No longa, o indivíduo central é Hasumi, que surge à primeira vista tímido e íntegro, embora já demonstrando sinais de transtorno de personalidade antissocial. Com uma postura ora profissional, ora amigável, coloca-se prontamente disponível e alerta para os estudantes – estes confortáveis em contatá-lo mais do que qualquer outro professor caso surja algum problema. No entanto, pouco a pouco vamos conhecendo o passado violento e obscuro do professor, paralelamente às revelações feitas sobre os sujeitos secundários da trama, como o abuso sexual contínuo do professor Shibahara contra uma aluna, e o relacionamento secreto entre o professor Kume e o estudante Hayashi. Mais tarde, sê-lo-iam manipulados por Hasumi em seu plano mirabolante, que cabe apenas a ele conhece-lo claramente.

Os estudantes compõem o outro núcleo principal. Eles, por sua vez, apresentam-se geralmente desinteressados pela vida escolar; têm vidas sexualmente ativas, consomem bebidas alcoólicas, comportamento típico quando se tem essa idade. Na escola, sustentam um blog de fofocas que gira em torno deles mesmos. Alguns se orgulham em parecerem mais espertos do que realmente são: detalhes deveras pequenos, mas que no caminho até o clímax final, revelam aspectos da genialidade do diretor. Torna-se comum entre eles colar durante as provas com o auxílio do celular: este é o problema que dá o pontapé inicial á história e que mais tarde, também será usado pelo professor como justificativa deliberada para o que está por vir. Um detalhe importante é que esses estudantes são tão astutos na arte da cola que conseguem fazê-la sem nem precisarem olhar para a tela do aparelho. Enquanto os olhares estão fixos no papel sobre a carteira, as respostas das questões são todas compartilhadas com os dedos das mãos dedilhando nervosamente debaixo das mesas.

Temas como bullying e suicídio – que há tempos fazem parte da realidade do Japão – também tem espaço mesmo que pequeno no filme. O diretor Takashi Miike introduz esses dois temas de uma forma um tanto natural, colocando-os em segundo plano para servir de suporte ao enredo principal. Não há uma preocupação em fazer uma crítica social sobre essas questões. Sabe-se que o bullying é tão corriqueiro na vida dos estudantes que até professores costumam participar da prática. Quanto ao suicídio, em média 30 mil pessoas o cometem ao ano naquele país, um número incrivelmente alto se considerar o número de habitantes – em torno de 127 milhões. Temos aqui, portanto, dois problemas no país que perduram até hoje, mas que no filme são encarados como parte intrínseca da sociedade japonesa.

lesson-of-the-evil2
Hideaki Ito como Hasumi

O que também me chamou a atenção foi a atuação de Hideaki Ito. Interpretar um psicopata talvez não seja tarefa fácil quando se está dentro de uma produção de Takashi Miike (mesmo os dois já tendo trabalhado juntos em 2007), e o ator brilha nos diálogos onde justamente esse distúrbio mental se mostra mais claro.

Sobre a Psicopatia de Hasumi

tumblr_n8piugQbOn1sm085eo1_1280
Hideaki Ito como Hasumi

Hasumi, aos 15 anos, apresentou o primeiro sinal preocupante de sociopatia quando, totalmente nu, matou a facadas os próprios pais. Uma observação sobre a nudez: um comportamento narcisista associado à perversão do protagonista derivada do seu transtorno. Na cena onde se exercita sem roupa na frente de sua velha e isolada casa do bairro, ele sequer se preocupa se tem alguém vendo. A pedofilia, frequentemente associada à esse distúrbio, também é explorada, por meio da relação que os professores Hasumi e Shibahara mantém com a mesma aluna.

O diagnóstico que fazemos de Hasumi gira em torno da psicopatia, mas para ele, talvez a explicação do seu comportamento esteja na crença de que ele está “cumprindo” ordens divinas. Ele acredita que Odin (deus da guerra e da morte) o designou para “salvar as almas da classe 4”, como ele mesmo diz ao final do filme. Tentando entender essa mitologia e sua relação com o professor, cheguei na hipótese de que Hasumi estaria, na verdade, “em transe” por ter incorporado o “pensamento” (Huginn) e a “mente” – ou “memória – no caso, Muninn, e por isso, teria feito o que fez. O olho cinza da aluna que sobreviveu ao final do filme provavelmente é uma referência à Odin, que sacrificou um de seus olhos para adquirir sabedoria. Odin, Huginn e Muninn são seres nórdicos mitológicos, e Hasumi chega a falar sobre isso na cena em que observa duas corujas pretas do lado de fora de sua casa:

tumblr_mvjjgjHgqJ1r1hcigo1_1280
“Na mitologia nórdica, um par de corvos, chamados Huginn e Muninn, patrulham o mundo a mando de Odin. Os nomes deles significam “pensamento” e “memoria”. Esses dois corvos voam pela Terra e levam notícias à Odin, Rei dos Deuses.”

Existem muitas teorias acerca desses corvos e suas relações com o deus Odin – muitas delas relacionadas ao Xamanismo (práticas antigas que envolvem magia e transe) -, e por isso é difícil tirar uma conclusão definitiva sobre o que se passava na mente do protagonista. Além disso, seria preciso ler a obra na qual o filme foi baseado para entender melhor como é feita essa associação entre a mitologia e a psicopatia do professor. O que posso afirmar é que o diretor procurou explorar as razões que podem ter levado Hasumi a praticar a chacina contra aqueles estudantes, adentrando na complexidade desse tipo de transtorno sociopático mas sem tirar nenhuma conclusão. Se a missão foi explicar aquilo que chamam de loucura, ela foi cumprida. Se é plausível ou socialmente aceita, isso não cabe no julgamento dele, mas do espectador.

O embate final

Por fim, ao concluir que o público já conheceu o suficiente sobre a rotina e os segredos que compõem o colégio, o diretor enfim nos leva ao ponto alto do filme. É neste momento que tanto os estudantes como o professor são colocados à prova. Este último encontra a oportunidade única de cometer uma chacina à sua maneira, tendo dezenas de pessoas em suas mãos como brinquedo. A empatia que os alunos até então tinham por ele o favoreceu para trata-los como verdadeiras marionetes. Astutos na cola, é aqui que a esperteza desses alunos termina, nos revelando outro lado de suas personalidades assim como o fez Hasumi: dispondo-se de um grande colégio para encontrarem algum esconderijo, ou mesmo saídas de emergência, os alunos resolvem mutuarem-se no último andar em uma escada exposta sem qualquer chance de defesa. Nenhum plano de fuga é traçado com a mínima racionalidade, e os poucos que o conseguem fazê-lo, fracassam já nos primeiros minutos.

tumblr_noo2yz829I1qmemvwo2_1280
A arma utilizada por Hasumi ganha vida e conversa com o professor

Para Hasumi, seu plano estava sendo tão fácil de executá-lo que até a própria arma usada criou vida, reclamando, em inglês, sentir-se entediada (aqui o diretor brinca com maestria com o clima gore do filme). Dois lados estavam sendo dispostos num combate que me fez duvidar sobre as intenções por trás do diretor. Seriam os alunos uma desculpa usada pelo Takashi Miike para trabalhar a complexa psicopatia do professor, ou a “lição do mal” do professor seria uma desculpa para Miike criticar a moderna juventude japonesa ?

De fato, é curioso notar a mudança radical dos alunos, da esperteza à completa falta de senso. Em filmes anteriores que se assemelham bastante à “Lição do Mal”, os estudantes agem de forma consideravelmente diferente: Em “Kokuhaku” (Confessions), filme de 2010 dirigido por Tetsuya Nakashima, os alunos principais da trama são postos contra uma professora que os acusam de matar a sua filha. Destemidos, são hábeis na persuasão e destreza, além de conhecerem a produção de armas químicas e a prática terrorista. Já em “Batalha Real”, produção de 2007 do diretor Kinji Fukasaku, alunos de um colégio são obrigados a se confrontarem até a morte em uma ilha deserta. Embora não tendo que enfrentarem diretamente um adulto, mostram-se com uma surpreendente capacidade de raciocinarem em situações de conflito, algo que claramente faltou aos alunos do professor Hasumi.

Miike, apesar de ter agradado ao público com suas habituais cenas sangrentas, e conquistado alguns prêmios internacionais, não agradou parte da crítica que a resumiu em “mais um filme gore”. Mas pelos argumentos que mencionei anteriormente, para mim, “Lição do Mal” definitvamente não é apenas uma sessão de violência gratuita.

Título Original: Lesson of the Evil / Aku no Kyôten Ano: 2012 País: Japão Gênero: Horror / Thriller Diretor: Takashi Miike

Artigos Relacionados

Deixe um comentário